Itália diz que Flávio Bolsonaro obteve cidadania em janeiro de 2023, 58 dias após enviar documentos

Itália confirma cidadania de Flávio Bolsonaro em 58 dias e gera debate

Política

O caso envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que deixou o Brasil utilizando um passaporte italiano, foi pauta de debates nesta sexta-feira (6) no Parlamento italiano. Durante sessão no plenário da Câmara, o governo informou que ele e seus irmãos, Carlos e Eduardo, tiveram a cidadania reconhecida apenas 58 dias após o envio da documentação à Embaixada da Itália em Brasília.

O aval oficial ocorreu em 5 de janeiro de 2023, poucos dias depois da posse do presidente Lula (PT) e antecedendo em três dias os atos golpistas em Brasília. Esse intervalo de aproximadamente dois meses destoa da longa espera enfrentada nos consulados do país europeu, que costumava demandar cerca de dez anos antes de alterações na Lei da Cidadania ocorridas no ano passado. Contudo, o governo da Itália refutou a hipótese de que o processo tenha ocorrido à margem das regras legais.

Tramitação e cronologia dos pedidos

A convocação de um representante do Executivo para prestar esclarecimentos na Câmara partiu do deputado oposicionista Angelo Bonelli, integrante da Aliança Verde e de Esquerda. Ele questionou as circunstâncias em que Flávio obteve o documento europeu, empregado em sua saída do Brasil com destino aos Estados Unidos após o revés no segundo pleito.

Em resposta, a subsecretária Matilde Siracusano, vinculada ao Ministério das Relações com o Parlamento e integrante do partido Força Itália — legenda do vice-premiê Antonio Tajani —, detalhou que o primeiro a solicitar inclusão na lista de espera na embaixada foi o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, em 2020. Carlos e Flávio adotaram a mesma medida quase um ano depois, com análises conjuntas das demandas.

“Em 20 de outubro de 2021, depois de um ano do inserimento na lista de espera, Eduardo fez contato com o consulado da embaixada para pedir atualização sobre o estado do seu pedido”, declarou Siracusano.

O avanço seguinte ocorreu em 8 de novembro de 2022, após a derrota no segundo turno do ex-presidente Jair Bolsonaro, quando os irmãos entregaram os papéis para formalizar a avaliação. A família possui ascendência de um familiar originário da região do Vêneto que emigrou para o Brasil no século 19.

“A cidadania italiana foi reconhecida aos três irmãos Bolsonaro em 5 de janeiro de 2023. A documentação apresentada resultava completa e conforme às disposições então aplicáveis”, pontuou a subsecretária.

Com a certidão emitida, os interessados puderam solicitar os documentos de identidade. Flávio retirou o passaporte em 8 de novembro de 2023, enquanto Eduardo e Carlos obtiveram os seus entre os meses de abril e junho de 2024. “O reconhecimento da cidadania italiana de Eduardo, Flávio e Carlos Bolsonaro ocorreu em respeito à normativa então vigente e aos procedimentos previstos”, complementou a representante governamental, sem responder diretamente às suspeitas de tratamento diferenciado levantadas pela oposição.

Controvérsias e próximos passos

Diante das explanações, o deputado Angelo Bonelli manteve as críticas no plenário. “É claro que depois dessa resposta é evidente que houve um procedimento acelerado”, argumentou na sua réplica. “É necessário apurar se houve da parte de algum membro do governo italiano uma solicitação, uma recomendação política para que os irmãos Bolsonaro que fogem da Justiça, Eduardo e Flávio, obtivessem o passaporte, enquanto existem italianos que esperam dez anos”, completou.

Ao término da sessão, o parlamentar anunciou que protocolará uma denúncia perante a Justiça italiana para averiguar eventuais pressões políticas e favorecimentos, destacando a proximidade entre o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini e os irmãos Bolsonaro. Salvini, líder da Liga — legenda que recebeu Flávio em um evento na Itália em 2025 e o definiu como “amigo” após o pleito —, destaca-se como o aliado mais próximo da família entre os governantes locais, ao passo que a primeira-ministra Giorgia Meloni enviou congratulações a Lula no dia seguinte à sua vitória.

O uso do passaporte italiano por Flávio para ingressar na Argentina após a derrota ganhou destaque na mídia italiana. A repercussão ocorre em meio a discussões sobre os reflexos das novas restrições legais impostas à concessão de cidadania a descendentes estrangeiros, tema que também ganhou tração após o uso de documento similar pela ex-deputada Carla Zambelli em sua saída do Brasil rumo à Itália.

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