Jornada média mais curta que a do contrato pode reduzir impacto do fim da 6x1

Fim da escala 6×1 pode ter impacto menor na economia; entenda

Mercados

A potencial extinção da escala 6×1 pode trazer um reflexo econômico menos severo do que o projetado inicialmente. A explicação para esse cenário está no dia a dia do mercado de trabalho: na prática, os profissionais contratados sob o regime de carteira assinada já cumprem rotinas semanais mais próximas de 40 horas do que o limite de 44 horas fixado na maioria dos acordos formais.

Divergência entre dados oficiais e a rotina real

O diagnóstico foi elaborado pelo economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, a partir do cruzamento de estatísticas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), apurada pelo IBGE, com registros administrativos da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Enquanto a Rais referente a 2025 aponta que 73,8% dos vínculos de emprego estipulam jornadas entre 41 e 44 horas no papel, a Pnad do primeiro trimestre registrou que apenas 35,8% dos empregados formais cumpriram de fato essa quantidade de horas. Em contrapartida, 39% declararam ter atuado entre 31 e 40 horas na semana, embora os registros do MTE indiquem apenas 15% de contratações nessa faixa.

Considerando o segundo trimestre, a média efetiva trabalhada no setor privado com carteira assinada ficou em 41,6 horas por semana. Diante desse quadro, Imaizumi avalia: “Na prática, o impacto vai ser menor do que se imagina, porque há discrepância entre horas trabalhadas no contrato e efetivas”.

O economista elenca fatores práticos que explicam essa distância: “Férias, feriados, afastamentos, alguma hora prolongada de almoço, principalmente para quem não bate ponto, e variações na demanda das empresas podem reduzir as horas trabalhadas sem alterar a jornada prevista em contrato.” Ele acrescenta que muitos empregadores assinam contratos de 44 horas, mas liberam os funcionários do expediente aos sábados.

A proposta em debate visa diminuir o limite constitucional de 44 para 40 horas semanais, garantindo dois dias de repouso remunerado, de preferência aos domingos. Como o texto prevê uma transição para 42 horas no primeiro ano, a média atual do trabalhador formal já se encontra dentro dessa meta intermediária.

Impactos desiguais entre os setores da economia

Apesar da média geral atenuar o choque, os efeitos não serão homogêneos entre as atividades econômicas. Levantamentos do MTE indicam que 14,8 milhões de trabalhadores estavam na escala 6×1 em dezembro de 2025, equivalendo a 29,9% dos postos formais.

Segmentos com operações ininterruptas concentram a maior fatia desse modelo, como transporte aéreo (53,2%), hospedagem (52%), alimentação (47,1%) e comércio (42,2%). Por outro lado, setores como eletricidade e gás registram apenas 11,8% do quadro sob essa escala.

De acordo com os números da Pnad, as jornadas semanais efetivas também variam conforme o segmento:

  • Agropecuária, alojamento e alimentação: 43 horas;
  • Comércio e transportes: pouco acima de 42 horas;
  • Construção civil e indústria: ligeiramente acima de 41 horas;
  • Serviços gerais e de informação: pouco mais de 40 horas;
  • Educação: cerca de 39 horas;
  • Administração pública: média próxima de 34 horas semanais.

Segundo Imaizumi, “O efeito é bastante heterogêneo. Em alguns setores, teremos mais emprego e mais inflação. Em outros, teremos mais informalidade, e em outros, menos empregos”.

Nas empresas de pequeno porte e microempresas, a proporção de funcionários na escala de seis dias alcança 36,2% e 34,5%, respectivamente, contra 32,9% nas médias e grandes. No entanto, por concentrarem um volume maior de vagas, as companhias de maior porte reúnem 7,9 milhões de pessoas nesse regime.

Produtividade, custos operacionais e histórico

Para compensar a redução das horas sem gerar retração no Produto Interno Bruto (PIB), calcula-se que a produtividade média brasileira precisaria subir 1,4% caso o corte fosse imediato. A aplicação gradual da medida, no entanto, tende a amenizar essa pressão, dando tempo para ajustes operacionais.

A estagnação da produtividade nacional na última década, decorrente de baixos investimentos e carências educacionais, representa um obstáculo. Diante disso, analistas apontam o risco de elevação de custos operacionais, repasse de preços ao consumidor e avanço da contratação de prestadores de serviço (PJ) ou empregos sem carteira assinada.

Em sentido oposto, a redução de desgaste físico e mental pode gerar ganhos corporativos indiretos. As licenças médicas relacionadas à saúde mental representaram 0,53% da população ocupada em 2025 — índice quase três vezes superior aos 0,19% anotados em 2015. Jornadas mais equilibradas poderiam reduzir o absenteísmo, diminuir custos de rotatividade e favorecer a ampliação do público feminino no mercado de trabalho.

A transição remete ao corte de jornada estabelecido pela Constituição de 1988, que reduziu o teto de 48 para 44 horas semanais sem provocar desemprego em massa. Contudo, as condições conjunturais de hoje são distintas daquele período, o que exigirá acompanhamento atento dos impactos sobre a competitividade das empresas.

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