A produção musical brasileira contemporânea se destaca pela diversidade de linguagens e estilos em uma nova leva de lançamentos. Transitando entre a música afro-brasileira, o rock pesado e as atmosferas sombrias do pós-punk, trabalhos inéditos de Ana Karina Sebastião, Radioativa e WRY ampliam os horizontes do cenário independente.
O manifesto sonoro de Ana Karina Sebastião
Apresentando sua estreia solo com o disco “NEGA NINJA”, a baixista, cantora e compositora Ana Karina Sebastião articula elementos de samba, soul e R&B. O repertório aproxima influências negras norte-americanas e nacionais para discutir relações afetivas, inquietações e caminhos pessoais, colocando o contrabaixo como ponto central de diálogo com os vocais.
O conceito do projeto começou na faixa homônima, desenvolvida na época em que Ana trabalhava com a artista moçambicana Lena Bahule. Criado como tributo a Lena, a familiares como sua mãe, avó e tias, e a outras mulheres negras, o termo retrata a resiliência diária para superar desafios. Sobre essa autonomia artística, a musicista pontuou:
“Eu me sinto livre para fazer o que eu quiser musicalmente e para expressar meus sentimentos através das letras, contando histórias e experiências. E também existe um desejo de inspirar mulheres e outras pessoas que possam se enxergar e se reconhecer através do meu trabalho.”
Com produção musical de Hebert Medeiros, a obra foi gerada organicamente ao longo de aproximadamente cinco anos de experimentações no estúdio.
Radioativa aposta no metal alternativo
Caminhando por territórios mais densos, a banda fluminense Radioativa canalizou vivências de superação e luto em “Angústia”, primeira amostra de “Retalhos”, álbum de estreia previsto para sair em janeiro de 2027. Gravada em 2025 com participação especial de Rodrigo Ferretti, a faixa retrata conflitos emocionais internos.
A composição marca uma virada sonora para o grupo, que expande seu alicerce no rock alternativo em direção ao metal alternativo. A faixa traz afinações graves, guitarras pesadas, baixo encorpado e vocais viscerais. A cantora Ana Marques alia técnica limpa a timbres rasgados, fruto de uma pesquisa vocal contínua:
“Comecei a estudar distorções vocais oficialmente em 2024, e desde então venho pensando em como inseri-las nas composições sem que haja uma ruptura com o que fazíamos antes. A ideia era mostrar uma evolução natural e maturidade musical.”
A narrativa cinematográfica do WRY
Veterana com mais de vinte anos de carreira e prestígio no circuito internacional, a banda paulista WRY divulgou a misteriosa “Décimo Andar”. Trata-se do terceiro single de antecipação ao nono disco de estúdio do grupo, marcado para novembro, dando sequência às faixas “Sob Os Olhos Da Multidão” e “No Meio Do Sonho”. Este será o segundo trabalho do grupo cantado totalmente na língua portuguesa.
Apoiando-se no shoegaze e no pós-punk, o quarteto constrói uma atmosfera melancólica sobre isolamento e expectativa. A letra descreve um sujeito que, da altura de um prédio, contempla a noite e aguarda alguém incerto. O vocalista Mario Bross detalhou a inspiração por trás da faixa:
“A música surgiu de uma imagem: alguém sozinho à noite ouvindo a vida acontecer lá fora, enquanto espera por alguém que não está lá e talvez nunca esteve. O décimo andar é alto e longe do chão, um lugar de espera e observação. Conseguimos fazer uma música enigmática, densa e melancólica que parece uma cena de filme.”
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