Livro argumenta que voto se organiza por valores e estruturas mentais, não por fatos

Como os valores e a linguagem definem as escolhas nas urnas

Política

A ideia de que o eleitor toma decisões políticas com base em dados concretos e na análise racional de propostas de governo é um mito desconstruído pela ciência da linguagem. Na obra “Não Pense num Elefante: Entenda Seus Valores e Aprenda a Enquadrar o Debate”, o linguista norte-americano George Lakoff sustenta que o comportamento eleitoral é guiado por estruturas mentais e conexões morais profundas, e não simplesmente pela apresentação de fatos.

Professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, Lakoff começou a desenvolver sua tese a partir da reeleição de George W. Bush nos Estados Unidos, em 2004. O acadêmico procurava entender o motivo de os republicanos manterem amplo apoio popular ao promoverem agendas como isenções fiscais para os mais ricos, que beneficiam diretamente uma parcela restrita da população. A resposta, segundo ele, está no poder da linguagem e das metáforas.

Publicado no Brasil pela editora Fósforo — com tradução de Adriano Scandolara, volume de 256 páginas a R$ 94,90 no formato impresso e R$ 66,40 em e-book —, o livro defende que a comunicação conservadora tem sido mais eficaz ao estabelecer a moldura das discussões. “Progressistas têm a ilusão de que, se as pessoas entendessem os fatos, ficaria tudo certo”, pontuou o autor na introdução original. “Errado.”

A roteirista e produtora Alessandra Orofino, responsável pelo texto de apresentação da edição brasileira, reforça a avaliação. “Os fatos sozinhos não convencem ninguém”, destacou. “As pessoas tomam decisões políticas baseadas em seus sistemas de valores e na linguagem que evoca esses valores.”

O poder dos quadros mentais

A teoria central de Lakoff gira em torno dos “enquadramentos”, que são mecanismos inconscientes pelos quais o cérebro interpreta o contexto social. Um exemplo emblemático citado pelo autor é o termo “alívio fiscal”. Sob esse prisma, o imposto é automaticamente associado a um fardo opressor, transformando a autoridade que reduz tributos em uma força libertadora. Com isso, os efeitos negativos do corte de receitas na prestação de serviços básicos e na redução de desigualdades acabam ignorados pelo público.

Para o linguista, o debate público norte-americano vem sendo moldado pela direita desde a década de 1970 por meio dessas construções simbólicas. Dessa forma, caso o campo progressista deseje recuperar espaço, precisa reelaborar seus próprios enquadramentos para liderar a pauta política.

A metáfora da família e as críticas teóricas

A análise do pesquisador também transporta os conceitos cognitivos para a ideologia por meio de representações parentais. Lakoff argumenta que os indivíduos enxergam a nação como uma extensão da dinâmica familiar: * Modelo do pai severo (conservador): Parte da premissa de que o mundo é hostil e competitivo, exigindo disciplina rígida para alcançar a prosperidade individual. “Consideremos as implicações disso para os programas sociais: é imoral dar às pessoas coisas que elas não fizeram por merecer, porque assim elas não desenvolvem disciplina e se tornam dependentes e imorais”, analisa. * Modelo dos pais acolhedores (progressista): Foca no cuidado mútuo, na proteção e na empatia social, sustentando pautas voltadas para “questões de proteção ambiental, proteção ao trabalhador, proteção ao consumidor e proteção contra doenças”.

Apesar da clareza das analogias, a abordagem de Lakoff recebe contestações de outros pesquisadores devido ao seu tom determinista. O autor rejeita a existência de um pensamento de centro estruturado: “Vale lembrar”, ele diz, “que não existe uma ideologia do moderado: não existe nenhum conjunto de perspectivas que sejam compartilhadas por todos os moderados”.

Críticos lembram que a ciência política identifica múltiplos eixos independentes no comportamento do eleitor, mostrando que posicionamentos em costumes não necessariamente determinam visões sobre a economia. Além disso, o psicólogo Steven Pinker apontou fragilidades na correlação puramente biológica feita pelo autor, salientando que a psicologia cognitiva “não demonstrou que as pessoas assimilem enquadramentos por meio da mera repetição”. Da mesma forma, vertentes como o liberalismo clássico historicamente atuaram para estabelecer freios e contrapesos ao poder central, desmentindo a divisão binária exclusiva entre figuras paternas rígidas ou protetoras.

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