A machosfera — ecossistema online que reúne comunidades com crenças compartilhadas sobre masculinidade, misoginia e vitimização masculina — deve ser tratada de forma urgente como uma questão de saúde pública. A conclusão é defendida pelos especialistas Kent Buse e Sarah Hawkes, principais diretores do centro de estudos focado em gênero Global 50/50, em um artigo de opinião lançado no periódico médico The Lancet.
De acordo com os especialistas, embora a fiscalização e a regulação das redes sociais sejam passos relevantes, elas falham em conter a real gravidade da situação. O plano de contenção precisa englobar, de maneira unificada, aportes financeiros direcionados à educação, ao suporte psicológico e a novas perspectivas no campo econômico voltadas especificamente para os meninos.
Buse e Hawkes pontuam que o distanciamento dos garotos das salas de aula, o crescimento nas taxas de homens encarcerados, as instabilidades financeiras e as barreiras para conseguir inserção no mercado de trabalho intensificam a cobrança social para que alcancem os padrões impostos pela chamada masculinidade hegemônica.
O conceito aborda o modelo dominante e cultural sobre a performance e as atitudes esperadas de um homem na sociedade: rigidez, força, ausência de lágrimas ou demonstrações de vulnerabilidade, além da obrigação de atuar como o principal provedor de recursos financeiros do lar.
A pesquisa aponta, ainda, que os aparatos estatais de saúde e de seguridade social falham em acolher o sofrimento psíquico e os problemas de saúde mental que se intensificam nessa parcela da população diante de tais exigências cotidianas. Um levantamento da OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgado em 2021 revelou um índice global de suicídios substancialmente maior entre os homens do que entre as mulheres, marcando 12,6 para cada 100 mil indivíduos contra 5,4 para cada 100 mil, respectivamente.
Para os autores do estudo, o ecossistema da machosfera transfere a culpa dessas dificuldades estruturais e econômicas para o movimento feminista e para as mulheres.
Eles comparam o modelo de atuação dos criadores de conteúdo e das grandes empresas de tecnologia às indústrias de cigarros e de alimentos ultraprocessados. Ambas se apoiam no discurso da autonomia e da responsabilização individual para comercializar mentorias, treinamentos e mercadorias, esquivando-se dos danos sociais provocados pela machosfera.
“Em uma das narrativas mais recorrentes da machosfera os homens são convencidos de que suas dificuldades decorrem de uma cultura feminilizada que reprime sua suposta dominância natural. A solução oferecida é individual, como a busca pela otimização de si mesmo, a disciplina, o uso de suplementos e o coaching, em vez de respostas coletivas ou políticas”, afirma Kent Buse, coautor do artigo.
Medidas de enfrentamento propostas
Como alternativa para solucionar o cenário, os acadêmicos sugerem, primariamente, o direcionamento de investimentos para iniciativas preventivas que conectem múltiplos setores, como economia, saúde e educação, visando mitigar as mazelas sociais que empurram garotos e homens para a marginalização.
O texto destaca a urgência de atenuar a vulnerabilidade financeira mediante programas de emprego, requalificação profissional e amparo social, além de resgatar a permanência dos meninos no sistema escolar e assegurar pleno acesso aos serviços de saúde e de atendimento psicológico.
A segunda diretriz apontada pelo estudo foca na convergência entre os âmbitos educacional e sanitário, permitindo que escolas implementem ações voltadas ao desenvolvimento de competências socioemocionais, à mitigação de posturas agressivas e ao aprimoramento das capacidades relacionais dos jovens.
Como terceiro eixo, o artigo recomenda o desenvolvimento de estratégias comunicacionais que evitem estigmatizar a masculinidade como intrinsecamente tóxica ou rotular homens e garotos como problemáticos por natureza. O ideal é fomentar narrativas que valorizem modelos alternativos de masculinidades.
No tocante ao ambiente virtual, o documento sugere que as regras para o meio digital caminhem lado a lado com políticas tradicionais de saúde pública, a exemplo das normatizações aplicadas ao tabagismo, o que inclui sanções rígidas à publicidade direcionada. Os governos também necessitam destinar verbas para monitorias, investigações científicas e checagens de impacto das medidas adotadas.
Por fim, o artigo pondera que, embora a machosfera não seja a criadora original da misoginia, ela atua de maneira decisiva para inflar e normalizar preconceitos históricos enraizados na cultura. O combate a esse ambiente digital exige, portanto, a erradicação do machismo também fora das telas, atacando a raiz do problema.
Panorama internacional e cenário no Brasil
Para Kent Buse, conquistas legais importantes foram alcançadas recentemente em alguns países, mas as ações continuam tímidas. Ele menciona a Lei de Segurança Online aprovada no Reino Unido em 2023, que impôs deveres rígidos às plataformas, o veto ao acesso de redes sociais para menores de 16 anos na Austrália, e as diretrizes preventivas adotadas na região australiana de Victoria, que inseriu o ensino de relações baseadas no respeito dentro das escolas desde 2016.
No contexto brasileiro, Buse relembra a determinação de 2025 emitida pelo STF (Supremo Tribunal Federal) acerca do Marco Civil da Internet, que estendeu as responsabilidades das companhias tecnológicas, somada à legislação recente que baniu o uso de aparelhos celulares no interior das salas de aula.
“O que nenhum governo fez foi reunir essas iniciativas em um plano coerente e interministerial, com orçamento e um ministro responsável por sua execução, como os países fizeram em relação ao tabaco”, afirma Buse.
A visão ampla defendida no estudo encontra eco na antropóloga Letícia Cesarino, docente da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Em sua obra “Ecologias de crise – uma teoria cibernética da radicalização”, publicada em outubro pela editora Ubu, a pesquisadora enfatiza o peso estrutural exercido pelas plataformas e pelos algoritmos, ferramentas capazes de atrair novos adeptos a ideologias misóginas por meio das chamadas “espirais da radicalização”.
Segundo a especialista, um dos principais obstáculos para desenhar uma política pública e unificada de combate à misoginia virtual reside na forma como o tema é pautado no debate coletivo. É fundamental compreender que crianças e rapazes também sofrem lavagem cerebral e aliciamento por parte dessas bolhas, o que não os isenta de responder juridicamente por atos violentos praticados.
“Principalmente crianças e adolescentes que entram muito cedo nesse universo, eles são recrutados. Eles têm que ser responsabilizados, mas resolver o problema exige sair da perspectiva individual.”
What do you feel about this post?
Like
Love
Happy
Haha
Sad
