A reta final da corrida presidencial brasileira ganhou um novo alvo de críticas: a Meta Platforms Inc. A gigante das redes sociais foi acionada pela Justiça Eleitoral para evitar interferências na distribuição de conteúdo político e eleitoral, após a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acusar a companhia de falhar “repetida e sistematicamente” na entrega de publicações aos usuários. O cenário também atraiu críticas das Nações Unidas e cobranças de parlamentares norte-americanos.
Esse confronto reaviva um debate histórico sobre o peso das plataformas digitais no país, lembrando o embate prévio entre autoridades nacionais e Elon Musk por causa da plataforma X. Com Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL) empatados nas pesquisas antes do segundo turno, a entrega correta de mensagens pode ser decisiva no Brasil, um dos mercados mais lucrativos da Meta.
O petista mobilizou mais de 10 milhões de apoiadores em um canal no WhatsApp chamado “Exército de Lula”, mas denunciou falhas em sua conta, restrições no Instagram e assimetria de alcance. A campanha também apontou que a Meta AI recusa pedidos para criar imagens do presidente enquanto gera material favorável a seu opositor.
A Meta rebateu as acusações em nota divulgada em 16 de outubro, atribuindo os episódios a falhas técnicas isoladas, sem viés político, e garantiu tratamento igualitário aos candidatos. Contudo, manifestantes protestaram em São Paulo em frente à sede da empresa, e legisladores dos EUA liderados por Bernie Sanders enviaram uma carta a Mark Zuckerberg expressando preocupação com a suposta supressão de conteúdos.
“Vamos enfrentar isso, com toda a certeza. Vamos provar que podemos derrotar o império digital”, disse Lula durante uma transmissão ao vivo no YouTube na noite de quinta-feira (22). “A Meta terá de se reinventar, porque não pode achar que continuará enganando a humanidade para sempre —ela já fez isso bastante.”
Na quinta-feira, um juiz intimou a Meta e o X a prestarem esclarecimentos técnicos sobre suas atuações no pleito. Para Roberta Braga, fundadora do Instituto para a Democracia Digital das América, ainda que sem dolo de desequilibrar o pleito, a dimensão dos serviços da Meta gera um efeito desestabilizador diante de eventuais falhas.
“Como a Meta e seus produtos são tão fundamentais e centrais, em um país como o Brasil, para os debates em torno das eleições —inclusive para a forma como as campanhas mobilizam os eleitores e se conectam com eles—, as decisões da empresa, a falta delas ou quaisquer erros que cometa acabam, de fato, interferindo no processo eleitoral”, disse Braga, ponderando que a alta polarização pode mitigar o impacto prático de tais bloqueios no resultado final.
A regulação e o combate à desinformação
O ativismo regulatório brasileiro no setor digital vem de longa data, com discussões no Supremo Tribunal Federal sobre a responsabilização de plataformas por discursos de ódio e notícias falsas. Lula evitou ceder a pressões dos Estados Unidos sobre a regulamentação tecnológica e manteve diálogo com líderes europeus. O tema é central na agenda do governo, recordando que o plano golpista de 2023 por apoiadores de Jair Bolsonaro foi articulado majoritariamente em aplicativos de mensagens.
No cenário internacional, a União Europeia investiga o TikTok na Romênia e impôs novas regras para publicidade política, o que levou a Meta a banir anúncios eleitorais na região. A empresa também alterou sua moderação nos EUA em janeiro de 2025, adotando supervisão baseada em usuários nos moldes das notas da comunidade do X. Tais mudanças alinharam-se à aproximação de Zuckerberg com Donald Trump, que recentemente recebeu o executivo para um almoço na Casa Branca.
Embora Trump mantenha laços com o clã Bolsonaro, o governo brasileiro segue firme contra interferências externas, tendo rejeitado vistos para funcionários dos EUA e rechaçado declarações do presidente argentino Javier Milei. Segundo uma fonte oficial, caso Bolsonaro vença no domingo, Lula não deve contestar o resultado, mas poderá creditar parte da derrota às condições assimétricas impostas pelas empresas de tecnologia.
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