Modelo alimentar francês enfrenta crise com avanço de importações e mudanças climáticas

França vê hegemonia agrícola ruir com crise e importações

Gastronomia

A histórica liderança gastronômica e agrícola da França atravessa um momento de instabilidade sem precedentes. Símbolos do paladar nacional, como o trigo, os queijos artesanais e os vinhos, enfrentam uma combinação severa de transformações nos hábitos de consumo, concorrência global agressiva e choques climáticos extremos. Essa conjuntura reduziu o superávit agroalimentar do país no ano passado para apenas 181 milhões de euros (R$ 1,07 bilhão), o menor patamar registrado desde o fim dos anos 1970.

A desaceleração interna e a pressão externa já redesenham a balança de poder do setor no continente: a Espanha caminha para assumir o posto de principal potência produtora da Europa nos próximos anos, seguida de perto por Itália e Polônia. No mercado doméstico francês, as mudanças são visíveis no cotidiano das famílias, onde metade dos frangos servidos à mesa já é de origem importada e os queijos locais perdem terreno para derivados estrangeiros. Ao mesmo tempo, antigas usinas de açúcar abertas na era napoleônica encerram suas atividades e o trigo perde espaço diante de competidores de baixo custo, como a Rússia.

Reação de emergência e apoio governamental

Diante do cenário alarmante, o presidente Emmanuel Macron declarou uma “guerra agrícola” e acelerou uma legislação emergencial para proteger o campo. O pacote prevê o relaxamento de normas ambientais ligadas a projetos de irrigação, uso de pesticidas e expansão de estruturas pecuárias, além de determinar preferência para itens de origem nacional na alimentação escolar.

Em paralelo, a ministra da Agricultura, Annie Genevard, liberou um auxílio superior a 1 bilhão de euros (cerca de R$ 5,95 bilhões) para apoiar os produtores prejudicados por estiagens prolongadas e incêndios florestais devastadores. Apenas neste ano, o fogo destruiu cerca de 96,5 mil hectares na França, extensão mais de duas vezes e meia superior à registrada em todo o ano de 2025.

Além dos fatores climáticos, a alta dos custos de insumos impulsionada pelo conflito com o Irã, surtos de enfermidades em rebanhos e a disparada nas cotações globais de café e cacau impulsionaram as importações, deteriorando o saldo francês.

“Estamos vendo tendências que se intensificam e desestabilizam as certezas francesas”, disse Sébastien Abis, pesquisador associado ao IRIS (Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas). “O mundo inteiro acelerou, enquanto talvez tenhamos ficado um pouco parados”.

Vinhedos em retração e o avanço dos vizinhos

Mais relevante setor da pauta exportadora francesa de alimentos e bebidas, a vinicultura amarga as menores vendas ao exterior em mais de 15 anos. As barreiras tarifárias estabelecidas por Donald Trump, a menor procura vinda do mercado chinês e a queda no consumo mundial de álcool resultaram em uma safra histórica por sua baixa produtividade.

Dona de 10% de toda a área de vinhedos do planeta, a França viu suas plantações diminuírem um terço no intervalo de meio século. Para diminuir a oferta excessiva, incentivar a valorização dos preços e readequar o padrão de qualidade, o governo tem pago aos produtores para erradicar plantações. O processo prevê a retirada de 54 mil hectares a um custo de 217 milhões de euros (R$ 1,29 bilhão) em dois anos, destinando parte do excedente de vinho à fabricação de álcool em gel.

Enquanto as exportações da França avançaram modestos 2% no ano passado, as da Itália subiram 5%, impulsionadas por preços mais competitivos. Esse contraste se reflete no entreposto de Rungis, nas cercanias de Paris. Considerado o maior polo atacadista de alimentos frescos do planeta, o complexo distribui 3 milhões de toneladas anuais para 18 milhões de consumidores, com 40% da mercadoria vinda de outros países.

Na distribuidora Buisson, que atua no entreposto, as vendas diárias de itens como muçarela de búfala, burrata e parmesão saltaram de menos de duas toneladas para mais de cinco toneladas por dia nos últimos seis anos, respondendo hoje por 40% do faturamento da empresa. Ao lado da Itália, nações como Alemanha, Holanda, Bélgica e Reino Unido também ocupam quase metade do mercado de queijos importados na França.

Êxodo e envelhecimento populacional no campo

A crise econômica coincide com uma transformação demográfica profunda. Desde os anos 1970, o total de estabelecimentos rurais na França recuou 75%, somando atualmente 390 mil propriedades. De acordo com o Ministério da Agricultura, metade dos produtores em atividade deve se aposentar em até quatro anos.

Para renovar a força de trabalho agrícola, o governo quer ampliar até 2030 a formação de estudantes da área em 30%, a graduação de agrônomos em 30% e a de veterinários em 75%, além de facilitar o financiamento e a aquisição de terras para novos ingressantes. Mesmo assim, a insatisfação é palpável, como demonstraram os recentes protestos com tratores e despejo de batatas em Paris contra o tratado comercial entre União Europeia e Mercosul — embora a França continue sendo o país que mais recebe subsídios do bloco europeu, com média de 9 bilhões de euros (R$ 50,6 bilhões) por ano.

Na ponta da cadeia, a permanência da juventude no agronegócio tornou-se uma incógnita. É o caso do produtor de trigo Eric Thirouin, cujo filho hesita em dar continuidade aos negócios da família diante das frustrações constantes no campo.

“Estamos no centro da crise, porque estamos no período de colheita e precisamos enfrentar um calor extremo. Estamos assistindo à deterioração completa das colheitas previstas para este outono”, disse Thirouin. “Muitos agricultores franceses estão se perguntando: ‘Devo plantar uma quinta safra consecutiva sabendo que vou perder dinheiro novamente?’”

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