Ronald Cavaliere Silva (1953-2026) foi definido por amigos e conhecidos como um grandalhão gentil, doce, generoso e profundamente conectado à estética. Ele atuou como o arquiteto-chefe da 22ª Bienal Internacional de São Paulo, realizada em 1994. Ao longo de anos de colaboração com a Fundação Bienal de São Paulo, o seu trabalho ganhou destaque especial pelas reformas conduzidas no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, prédio projetado por Oscar Niemeyer no parque Ibirapuera.
Especialista em artes plásticas, Ronald tinha facilidade para reconhecer a inovação inesperada. Há 30 anos, apresentou trabalhos de Basquiat e a arte declarada no grafite a conhecidos, costurando o aprendizado em meio a conversas detalhadas sobre a sutileza da arte brasileira dos anos 1950. A comunicação de Ronald era marcada por labirintos nos diálogos, sugestões e caminhos aparentados que culminavam em surpresas.
Memórias do Leblon e paixão pela culinária No Leblon do fim dos anos 1990, o grupo de amigos de Ronald mantinha rituais que começavam em botequins aos sábados com toalha na mesa. Os encontros seguiam entre restaurantes, andanças e momentos na cozinha. Houve um almoço memorável com tornozelos de porco cozidos por horas, além do renomado cassoulet de Ronald, cuja receita era impecavelmente escrita em campos alternados da página, provando que a arte contaminava até as suas anotações culinárias. Em sua casa, restaram estantes seguidas de livros de culinária de muitos países. Ele cuidava dos afetos, cozinhava admiravelmente e entendia de detalhes e tempos.
Colecionador e traços da personalidade Razoavelmente obsessivo, Ronald acumulou uma imensa coleção de discos de vinil dedicada ao jazz e à música brasileira. Seus gestos eram cuidadosos e a fala, delicada e gentil. Lidar com o mundano, no entanto, não era o seu forte. Ele comentava com precisão sobre estética, estudava o urbanismo com cuidado e descobria o inusitado em meio a ideias surpreendentes, mas precisava de alguém ao lado para transformar sua criatividade em resultado prático.
Ronald viveu com Daphne um afeto encantador por mais de 20 anos, período em que ela tentou — nem sempre com sucesso — dar alguma capacidade prática ao arquiteto. Após o seu falecimento, ela expressou a saudade em uma mensagem: “Homem, parceiro e companheiro; seus pensamentos sei de cor, mas são as mãos que mais me faltam”.
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