Cercada por minas terrestres e sob constante vigilância de drones na linha de combate do sul ucraniano, a cidade ocupada de Oleshki vive um cenário de colapso humanitário absoluto. Sem acesso regular a alimentos, remédios ou rotas seguras de fuga, os cerca de 2.000 civis retidos no município — incluindo por volta de 40 crianças — enfrentam a ameaça iminente da inanição enquanto o inverno se aproxima.
A dimensão da tragédia veio a público por meio de relatos desesperados enviados a Tetiana Hasanenko, líder política do município atualmente no exílio. As mensagens revelam o esgotamento dos mantimentos básicos e a fraqueza física da população.
“No outono, com certeza morreremos”, escreveu um morador neste verão (no hemisfério norte). “Já estou morrendo. Fico mais fraco a cada dia.”
Outro habitante detalhou o cardápio escasso da residência: “Estamos preparando nosso último borsch [sopa típica]”, escreveu outro, “com uma beterraba, cinco batatas, uma cebola, uma abobrinha, um tomate e um pouco de cevada quebrada para engrossar. Não há cenouras.”
“Não há abastecimento de nenhum tipo. É um bloqueio total. E drones e incêndios sem fim. Como em um filme de terror”, relatou um terceiro morador.
Fogo cruzado e impasse diplomático
Separada pelo rio Dnipro da cidade de Kherson — reconquistada pelos ucranianos no final de 2022 —, Oleshki converteu-se em um dos pontos mais perigosos do conflito. De um lado, as tropas russas disparam contra a margem oposta a partir do território ocupado; do outro, os militares de Kiev atacam as defesas do Kremlin na cidade.
Sem a formação de corredores humanitários, a crise se aprofunda em meio a acusações mútuas. Autoridades de Kiev afirmam que os russos usam a população local como escudo humano para não perder o controle do território, além de abater aeronaves não tripuladas que tentavam lançar mantimentos e confiscar suprimentos. “A ajuda humanitária não deveria ter de ser entregue sob ataques de drones”, disse Andrii Sibiha, ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, apelando por intervenção da ONU e da Cruz Vermelha.
O Kremlin, por sua vez, admitiu a existência de uma “verdadeira catástrofe humanitária” na região, mas atribuiu a culpa ao lado adversário. “As Forças Armadas ucranianas impedem que as pessoas deixem a cidade e usam drones para interromper as entregas de alimentos e água potável”, afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, na declaração.
Cenário de devastação e rotas letais
A última chegada de comida por via terrestre ocorreu em 26 de maio, de acordo com Hasanenko. As viagens foram interrompidas após motoristas serem mortos na estrada. Sem transporte rodoviário, Kiev passou a usar drones para lançar pacotes de suprimentos, mas parte das remessas é interceptada.
Antigo balneário que abrigava mais de 20 mil pessoas, a cidade acumula escombros, carcaças de veículos carbonizados e vítimas fatais insepultas nas vias públicas. Quem tenta escapar caminha sobre um terreno minado por ambos os exércitos.
“É simplesmente uma catástrofe humanitária”, disse Volodimir Kostian, 49, que conseguiu fugir da cidade no início deste ano. Ele afirmou ter decidido partir depois que seu vizinho foi morto por um drone. “Um apocalipse”, disse. “Não há nada para comer.”
“Algumas pessoas gritam e choram histericamente, outras não demonstram emoção, outras nos culpam e perguntam: ‘Por que vocês não fazem acordos com a Cruz Vermelha, por que não nos ajudam?’”, disse Hasanenko sobre os apelos diários que recebe.
Do outro lado da margem, as forças ucranianas acompanham a degradação das condições. “É uma tragédia para todos nós”, declarou Mikola Stavitskii, comandante da 34ª Brigada de Fuzileiros Navais da Ucrânia. “É o nosso povo, são ucranianos”, acrescentou.
Entre os poucos que escaparam recentemente está o casal Oleksandr, de 60 anos, e sua esposa. Auxiliados pelo filho, eles fugiram de carro levando animais de estimação sob aviso explícito do condutor: “Fomos avisados imediatamente: ‘Gente, não nos responsabilizamos de forma alguma pela segurança de vocês, porque, durante estes 24 quilômetros, estaremos em algum lugar entre a vida e a morte’.”
O veículo do casal foi cercado por drones bélicos no trajeto, mas os operadores pouparam os passageiros após eles exibirem tecidos brancos. Semanas depois, amigos que tentaram refazer o percurso para levar comida morreram após o veículo colidir com uma mina terrestre, selando o isolamento definitivo dos que ficaram para trás.
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