O economista André Lara Resende foi o centro de intensas discussões econômicas após publicar um artigo em sua newsletter na plataforma Substack, em meados de setembro, sugerindo a criação de um novo órgão regulador para as políticas fiscal e monetária.
Ex-presidente do BNDES por oito meses em 1998, durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), e ex-diretor do Banco Central entre 1985 e 1986, na administração de José Sarney (MDB), ele viu seu texto pautar o debate sobre o cenário econômico de um eventual quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Conforme explicou à BBC News Brasil, a intenção era “responder porque a taxa básica de juros é extraordinariamente alta no Brasil e como escapar dessa armadilha”.
“Não significa subscrever que o país não tem problemas com gastos [públicos] e com tributação, mas não são eles que estão criando o problema do déficit fiscal brasileiro”, completou em entrevista nesta quarta-feira (5).
De acordo com dados do Tesouro Nacional citados pelo próprio autor, o déficit registrado em 2025 foi de 0,48% do Produto Interno Bruto (PIB). Para Lara Resende, o desequilíbrio nas contas públicas decorre primordialmente da taxa de juros elevada, e não dos gastos governamentais, rebatendo a avaliação corrente de grande parte do setor financeiro.
“É uma ‘bolsa-rentista’: juros da dívida pública pagos aos detentores da dívida que são também a parcela mais rica da população. Juros altos é um fator concentrador de renda e riqueza”.
Repercussão política e o suposto encontro com o governo
A repercussão ganhou tração quando a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) compartilhou o texto em suas redes sociais, classificando-o como essencial para combater o que chamou de ofensiva contra a política fiscal do país. O mercado financeiro rapidamente interpretou o gesto como indício de um encontro iminente entre o economista e o presidente Lula, cotado para definir nomes para o comando do Ministério da Fazenda.
Durante seu mandato atual, Lula criticou repetidamente os patamares da Selic. Nesta semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) fixou a taxa em 13,75% ao ano, interrompendo uma trajetória de quedas iniciada no primeiro semestre, quando estava em 15%.
“Eu não falei com o presidente Lula, não tenho nem tive contato com ele, assim como não tenho nada marcado [para apresentar a ideia a ideia a ele]. Essa notícia foi plantada obviamente para queimar a proposta ou [prejudicar] alguém que não eu, porque todo mundo sabe que eu não quero ir para o governo – incluindo o próprio Lula”, afirma.
“Estão queimando alguém que defendeu essa proposta, uma briga interna dentro do governo na qual eu entrei como Judas no Pai Nosso”.
A proposta do Conselho Fiscal e Monetário Nacional
Um dos principais artífices do Plano Real — medida que conteve a hiperinflação no final dos anos 1980 e início dos anos 1990 —, Lara Resende detalha que sua tese gira em torno da fundação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN). Esse órgão trabalharia em parceria com o Banco Central para traçar metas de longo prazo direcionadas tanto à área fiscal quanto aos juros, tendo como principal atribuição “coordenar as expectativas” do mercado.
Para que a medida avance, contudo, a aprovação do Congresso seria indispensável, visto que o Banco Central carece de autonomia legal para instituir conselhos deliberativos por conta própria, limitando-se a comitês consultivos.
O especialista tem mantido debates com o economista norte-americano John Cochrane, pesquisador da Hoover Institution da Universidade Stanford. Cochrane publicou recentemente um texto classificando a iniciativa do brasileiro como “sofisticada”, mas ponderou que ela se apoia mais em pressupostos teóricos do que em aplicações práticas.
No cenário doméstico, analistas financeiros e críticos da oposição argumentam que a tese representa uma intervenção forçada para derrubar os juros, ameaçando a autonomia operacional do Banco Central. As críticas se baseiam principalmente no trecho em que o economista sugere que, “para dar início ao novo regime fiscal e monetário, o BC anunciaria a redução gradual do juro básico, ao longo de cerca de 12 meses, para a taxa de crescimento nominal potencial mais um spread transitório de segurança de 2%, isto é, perto de 7,5% ao ano”.
“Eu tenho uma longa tradição de ser contra tabelamentos de qualquer tipo”, responde ele.
“[Estos números] são meramente indicativos. A trajetória e o ritmo [da taxa básica de juros] devem ser avaliados ao longo da implantação da proposta de acordo com a evolução das circunstâncias”, continua.
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