A Polícia Federal (PF) solicitou ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), um prazo adicional de 90 dias para dar continuidade ao inquérito que apura o financiamento de Dark Horse, obra cinematográfica baseada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Entre os alvos da investigação está o senador Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo PL.
O requerimento foi protocolado na Suprema Corte nesta quinta-feira, após o vencimento do prazo da apuração em 10 de outubro. Segundo os investigadores, a dilação temporal é indispensável para rastrear a procedência e a destinação final de quantias expressivas alocadas no projeto, que teria aportes vinculados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O caso mira possíveis crimes de organização criminosa, evasão de divisas, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.
Contradições em depoimento e remessas ao exterior
Conforme os levantamentos da PF, Vorcaro teria assumido o compromisso de aplicar por volta de R$ 134 milhões na cinebiografia. Desse total, cerca de US$ 12,3 milhões acabaram remetidos a contas internacionais utilizando uma engenharia financeira composta pela Entre Investimentos e Participações — empresa ligada a Vorcaro — e pelo fundo Havengate Development Fund LP, sediado nos Estados Unidos e criado com a finalidade de bancar o longa-metragem, segundo Flávio e Eduardo Bolsonaro.
A apuração detectou inconsistências no relato de Antônio Carlos Freixo Júnior, operador da Entre Investimentos que firmou acordo de colaboração com a Justiça. Em oitiva no início de outubro, o delator sustentou que realizou sete repasses ao exterior somando US$ 12,3 milhões a mando de Fabiano Zettel e sob aval de Vorcaro, afirmando acreditar que o destino era um negócio no setor imobiliário americano, e não o filme.
Entretanto, papéis entregues pelo próprio colaborador contrapõem sua narrativa. Um dos registros é uma carta-acordo de investimento de US$ 24 milhões que cita textualmente a produção audiovisual, destacando a frase: “time is of the essence to the production of the film” (“o tempo é essencial para a produção do filme”).
Diante desse fato, o relatório policial enfatizou: “O documento está, assim, em aparente contradição com a afirmação do colaborador de que desconhecia a destinação cinematográfica dos recursos”.
Divergências financeiras e próximos passos
Outro ponto de divergência reside na origem do capital. Embora Freixo Júnior tenha justificado que os montantes vinham de recursos próprios, alienação de ativos ou de uma conta garantida no Banco Master, os comprovantes indicam uma movimentação diferente. A primeira remessa foi antecipada por uma transferência de R$ 12 milhões efetuada pela Super Empreendimentos, ligada ao esquema financeiro de Vorcaro, no dia 12 de fevereiro de 2025.
No dia seguinte a esse depósito, ocorreu a conversão cambial de cerca de R$ 11,7 milhões. A operação coincide com mensagens interceptadas no celular de Vorcaro em 11 de fevereiro, data na qual ele cobrava urgência para que o câmbio “para o filme” fosse concluído naquele mesmo dia. Ao todo, a documentação entregue soma R$ 90 milhões em depósitos — montante que supera em R$ 18,8 milhões os valores transferidos para o exterior.
Para fundamentar a extensão dos trabalhos, a PF ressaltou que ainda necessita do desfecho de uma perícia contábil-financeira, da conclusão da análise de mídias digitais e de respostas a pedidos de cooperação internacional com outros países. Os agentes também pretendem colher novos depoimentos de Paulo Calixto, Fabiano Zettel, executivos das produtoras e reinterrogar Freixo Júnior.
Por fim, a defesa de Flávio Bolsonaro requereu acesso irrestrito às peças do inquérito, decisão que dependerá do parecer do ministro relator, André Mendonça.
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