Pig kidneys that were “frozen” for a year have been brought back to life

Rins congelados voltam a funcionar após um ano em estudo

Tecnologia

Em um marco inédito para a medicina regenerativa, pesquisadores conseguiram reaquecer com sucesso rins de porco que permaneceram preservados a -150 °C por vários meses — chegando a mais de um ano em um dos testes — e comprovaram que os órgãos voltaram a desempenhar suas funções vitais. Após o procedimento de reaquecimento e o reimplante nos animais, os tecidos recuperaram a circulação sanguínea adequada, retomaram a coloração rosada e voltaram a secretar urina. O propósito da equipe agora é reproduzir a técnica com órgãos humanos.

Nanotecnologia para superar os limites do congelamento

O procedimento utiliza a vitrificação, processo físico que resfria os tecidos a temperaturas extremamente baixas até que atinjam um aspecto semelhante ao vidro, impedindo o surgimento de cristais de gelo prejudiciais às células. Embora esse mecanismo já seja adotado para preservar óvulos, espermatozoides e embriões, aplicá-lo em órgãos complexos e volumosos sempre foi um obstáculo histórico para a ciência.

Para contornar o problema, a equipe liderada pelo cirurgião de transplantes Erik Finger e pelo bioengenheiro John Bischof, ambos da Universidade de Minnesota, desenvolveu um método inovador de preservação e reaquecimento:

  • O rim removido do doador é lavado com uma solução padrão de preservação para eliminar o sangue residual;
  • Em laboratório, o órgão recebe uma infusão gradual de crioprotetores químicos durante cerca de duas horas;
  • Na sequência, nanopartículas de óxido de ferro são inseridas na circulação do rim durante sete a oito minutos;
  • O órgão é resfriado gradativamente com vapor de nitrogênio até estabilizar a -120 °C e, por fim, armazenado a -150 °C.

A etapa crítica reside no descongelamento homogêneo. Ao aplicar um campo eletromagnético com radiofrequência alternada, as nanopartículas de ferro mudam de alinhamento e geram calor uniforme de dentro para fora, permitindo um aquecimento rápido e sem fraturas térmicas no tecido.

Recuperação funcional e desafios pendentes

Os rins tratados foram avaliados em máquinas de perfusão extracorpórea e também por meio de transplantes experimentais em porcos monitorados por duas horas. Embora tenham voltado a produzir urina rapidamente, o volume gerado correspondeu a cerca de dois terços do fluxo considerado normal. Além disso, os exames apontaram lesões celulares associadas à toxicidade das substâncias crioprotetoras.

Mesmo com essas limitações, a resposta biológica surpreendeu os especialistas. Um dos rins mantido congelado por mais de doze meses apresentou funcionamento imediato ao ser conectado ao sistema de perfusão, demonstrando desempenho até superior ao de amostras armazenadas por períodos mais curtos.

O criobiologista Peter Kilbride, cofundador da empresa Kyros Kairos, destacou que a conquista representa a superação de uma barreira técnica perseguida há décadas pela comunidade científica. Na mesma linha, Korkut Uygun, engenheiro biomédico e professor de cirurgia da Harvard Medical School, apontou que o método inaugura um momento revolucionário ao viabilizar a estocagem prolongada de tecidos biológicos.

Por outro lado, pioneiros da criobiologia, como Greg Fahy, diretor executivo e diretor científico da Intervene Immune e da 21st Century Medicine, ponderam que ainda não é possível garantir a sobrevivência de um animal a longo prazo apenas com base nesses experimentos, devido à extensão dos danos provocados pelos químicos.

O impacto na logística mundial de doações

Atualmente, o intervalo máximo para que um rim humano seja transplantado varia entre 24 e 36 horas fora do corpo. Essa janela curta inviabiliza transportes a longas distâncias e restringe o tempo disponível para encontrar receptores geneticamente compatíveis.

Kevin Myer, presidente e diretor executivo da organização de captação de órgãos LifeGift, sediada no Texas, avalia que estocar tecidos por um ano transformaria o setor, viabilizando bancos de reserva para atendimentos emergenciais, como ferimentos por armas de fogo ou quadros críticos de overdose.

A possibilidade de manter órgãos disponíveis por tempo indeterminado inverteria a lógica atual das filas de espera, fazendo com que o enxerto aguarde o paciente mais compatível. Os cientistas pretendem agora aprimorar formulações químicas menos agressivas, realizar transplantes suínos de longa duração e dar início aos primeiros ensaios com rins humanos.

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