Quem passa mais tempo perto dos gatos no dia a dia tende a ter o humor mais positivo, e o tempo de convivência importa mais do que os anos de tutela. É o que sugere um estudo da Universidade de Kyoto, no Japão, publicado na revista científica iScience, divulgado pela instituição em outubro e repercutido pelo jornal espanhol El Economista. Os pesquisadores também encontraram uma ligação hormonal entre tutores e gatos. O resultado ajuda a explicar por que tanta gente jura que o bichano melhorou sua vida, e por que a ciência nem sempre concordou.
A dúvida que motivou a pesquisa
Muitos tutores dizem que a convivência com o gato trouxe mais bem-estar. Alguns estudos anteriores apoiam essa impressão, mas as evidências são inconsistentes, e outros trabalhos chegaram a apontar possíveis efeitos negativos de ter um gato, segundo o comunicado oficial da Universidade de Kyoto.
Diante disso, a equipe questionou a ideia de que basta ter um gato para colher benefícios. A hipótese era outra: o que faria diferença seria a qualidade da relação, ou seja, como o tutor interage com o animal na rotina.
Como o estudo mediu a proximidade com os gatos
Durante um mês, os cientistas acompanharam o dia a dia de 29 gatos e seus 19 tutores, recrutados por panfletos e redes sociais, de acordo com a Universidade de Kyoto. Em cada casa, a equipe analisou hormônios em amostras de urina dos humanos e dos animais.
Os gatos usaram pequenos sensores Bluetooth presos à coleira, que registravam a proximidade física com os donos ao longo do dia. Os tutores responderam a questionários sobre o próprio humor, e os pesquisadores ainda observaram como cada gato se comportava diante do dono e de pessoas desconhecidas. O trabalho é assinado por Saho Takagi, Taisuke Tsubomura, Miho Nagasawa e Takefumi Kikusui.
Ocitocina em sintonia e menos estresse
O principal achado envolve dois hormônios: a ocitocina, ligada aos vínculos sociais, e o cortisol, associado ao estresse. Os níveis de ocitocina na urina de gatos e tutores andaram juntos. Quando a ocitocina do gato estava mais alta, o tutor tinha cortisol mais baixo e relatava menos sentimentos negativos.
Um detalhe curioso: a ocitocina do gato teve relação mais forte com o mau humor do tutor do que a ocitocina do próprio tutor.
Já o humor positivo não dependia de quanto tempo a pessoa tinha o gato. O que pesou foi a proximidade física acumulada no cotidiano. Em outras palavras, os sentimentos bons pareceram mais ligados ao tempo passado perto do animal.
A autora correspondente, Saho Takagi, descreveu a cena que muitos tutores conhecem. “Acho que muitos tutores conhecem a sensação de conforto e paz quando o gato sobe no colo pedindo carinho, a pessoa começa a fazer carinho e ele começa a ronronar satisfeito”, disse ela no comunicado da universidade. Segundo a pesquisadora, essa sensação pode ser parcialmente refletida na conexão hormonal entre gatos e tutores, sobretudo pela ocitocina.
O que o estudo não prova
A própria universidade avisa que os resultados mostram associações, não causa e efeito. Não dá para afirmar que o gato melhora o humor do tutor, nem o contrário: pode ser que pessoas de bom humor procurem mais o animal, ou que os dois movimentos aconteçam juntos. A amostra também é pequena, com 19 pessoas.
Ainda assim, o estudo oferece uma pista para o vaivém das pesquisas anteriores: a qualidade da relação entre humano e gato parece importar mais do que simplesmente ter um gato em casa. A equipe pretende investigar mais a fundo como os dois se influenciam nas interações do dia a dia.
Proximidade que respeita o tempo do gato
Para quem divide a casa com um felino, a leitura prática é simples: estar por perto conta. Isso não significa forçar colo nem carinho. O vínculo nasce de convivência tranquila, com o gato escolhendo se aproximar.
Vale prestar atenção aos sinais do animal. O ronronar costuma ser associado a satisfação, mas o gato ronronando nem sempre está feliz, e o comportamento pode aparecer em situações de dor. Quando ele encosta a cabeça em você, também está se comunicando: o gato que esfrega o rosto no tutor também deixa sinais de cheiro.
No fim, a ciência parece confirmar o que o sofá de muita gente já sabia: o gato no colo faz bem, desde que a escolha seja dele também.
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