Remédio usado em cesáreas pode reduzir sintomas de depressão pós-parto, revela estudo

Cetamina em cesáreas pode reduzir sintomas de depressão pós-parto

Estilo de Vida

Um medicamento amplamente aplicado em cirurgias para controle da dor e anestesia pode ajudar a diminuir os sintomas da depressão pós-parto. A conclusão foi divulgada por cientistas norte-americanos em um congresso de anestesiologia realizado em San Diego, nos Estados Unidos, no sábado, 17 de outubro. O levantamento avaliou informações de 1.832 mulheres que passaram por cesáreas e constatou uma queda expressiva nos indicadores depressivos entre aquelas que receberam cetamina ou escetamina durante ou logo após a intervenção cirúrgica, com os reflexos positivos notados entre o terceiro e o 14º dia depois do nascimento.

“A cetamina é conhecida pelos efeitos antidepressivos rápidos em tratamentos psiquiátricos, e nossas descobertas sugerem que ela pode oferecer benefícios além da anestesia e do alívio da dor para mulheres submetidas a cesáreas”, afirmou Peter Hsin, principal autor do estudo e estudante de medicina da Universidade Internacional da Flórida, em Miami.

O que os pesquisadores descobriram

Os cientistas reuniram os resultados de seis estudos clínicos realizados entre janeiro de 2015 e setembro de 2025. Todos avaliaram mulheres submetidas a cesáreas eletivas, isto é, cirurgias programadas. Em parte das participantes, os médicos administraram cetamina ou escetamina durante ou imediatamente após a cirurgia. Outras mulheres não receberam esses medicamentos, o que permitiu comparar os resultados.

Para medir os sintomas depressivos, os pesquisadores utilizaram a Escala de Depressão Pós-Natal de Edimburgo, um questionário reconhecido internacionalmente que ajuda a identificar sinais de sofrimento emocional após o parto.

As participantes que receberam os medicamentos apresentaram pontuações menores nessa avaliação. A redução foi considerada estatisticamente significativa, com efeito de intensidade pequena a moderada. Isso significa que houve um benefício mensurável no conjunto dos estudos, embora não seja possível afirmar que todas as mulheres melhoraram.

Por que a descoberta é importante

A depressão pós-parto pode provocar tristeza persistente, ansiedade, irritabilidade, perda de interesse por atividades antes prazerosas e dificuldade para criar vínculos com o bebê. É uma condição que vai além das mudanças de humor passageiras que algumas mães experimentam nos primeiros dias após o nascimento dos filhos.

Segundo os pesquisadores, a depressão pós-parto afeta aproximadamente uma em cada cinco mulheres, considerando as estimativas utilizadas na apresentação científica. O problema também pode prejudicar o sono, a alimentação, a recuperação física e a convivência familiar, justamente quando a mãe enfrenta uma rotina de cuidados intensos com o recém-nascido.

Estudos anteriores já associaram as cesáreas a uma maior frequência de sintomas depressivos. Por isso, os pesquisadores investigam maneiras de diminuir esse sofrimento ainda durante a internação. A cetamina chamou a atenção porque apresenta efeitos antidepressivos rápidos em determinados tratamentos psiquiátricos.

Medicamento ainda precisa de mais estudos

Apesar dos resultados positivos, os cientistas fazem uma ressalva importante: a pesquisa não demonstrou que a cetamina impede o desenvolvimento da depressão pós-parto. O estudo avaliou sintomas nas primeiras duas semanas, um período relativamente curto para determinar os efeitos sobre um quadro depressivo diagnosticado clinicamente.

“Isso é promissor, mas ainda é cedo para dizer que a cetamina previne a depressão pós-parto clinicamente diagnosticada ou que deva ser usada rotineiramente”, explicou Peter Hsin.

Os pesquisadores também precisam descobrir quais doses seriam mais adequadas, em que momento o medicamento deveria ser administrado e quanto tempo os possíveis benefícios permanecem. Além disso, a cetamina e a escetamina podem provocar efeitos adversos, como tontura, náusea e alterações temporárias da percepção, dependendo da dose e da forma de administração. Por isso, não há recomendação para que mulheres recebam esses medicamentos rotineiramente durante cesáreas com a finalidade de prevenir a depressão.

Próxima etapa com novas pacientes

A equipe já planeja avançar para uma nova fase pesquisa clínica, desta vez acompanhando diretamente mulheres submetidas a cesáreas. O trabalho deverá ser desenvolvido no Departamento de Anestesiologia da Universidade de Buffalo, em Nova York.

“Planejamos realizar um estudo prospectivo e randomizado para avaliar melhor o possível papel da cetamina administrada durante o parto por cesárea na redução da incidência e da gravidade da depressão pós-parto”, afirmou a médica Rose Berkun, professora associada de anestesiologia da universidade e coautora da pesquisa.

Eles querem esclarecer se a melhora observada nos primeiros dias realmente se traduz em proteção duradoura à saúde mental das mães e quais pacientes poderiam se beneficiar do tratamento.

Até que essas respostas estejam disponíveis, a identificação precoce dos sintomas, o acompanhamento médico e psicológico e o apoio familiar continuam essenciais para mulheres que enfrentam a depressão pós-parto.

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