Retrato da ensaísta quando jovem

O legado de Susan Sontag e a força de Contra a interpretação

Cultura

A consagração de Susan Sontag no primeiro escalão do pensamento ocidental ganhou sua certidão de nascimento definitiva em 1966, momento em que a publicação de Contra a interpretação alterou profundamente os rumos do ensaísmo contemporâneo. Em uma época dominada por disputas acirradas e círculos literários fechados, o livro rapidamente serviu de bússola para seus contemporâneos, transformando uma jovem autora em referência incontornável.

Antes mesmo de consolidar sua posição, Sontag já causava incômodo e fascínio em proporções semelhantes. Nos disputados eventos sociais da Nova York da década de 1960, Mary McCarthy teria indagado à recém-chegada: “Quer dizer então que você é a nova eu?”. Anos mais tarde, o eco de sua relevância provocava outras reações taxativas. “Eu sou a Sontag dos anos 90, disso não há a menor dúvida”, decretaria Camille Paglia três décadas depois, em participação televisiva no talk show conduzido por Chris Lydon, logo após o estrondo de Personas sexuais (1990).

A fúria crítica e a admiração mútua evidenciam que Sontag jamais foi mero reflexo alheio ou fenômeno efêmero. No emblemático artigo “Sontag, Bloody Sontag”, a própria Paglia apontou que os textos da ensaísta abalaram convenções “de uma forma crucial para o futuro da vida intelectual na América”. Ao demonstrar um “franco interesse” pela cultura pop, a escritora rompia amarras disposta “a acabar com a dicotomia entre arte alta e baixa”, enquanto sua “performance pública, a estreia eletrizante de uma mulher intelectual au courant” redesenhava o equilíbrio de gênero nos debates de ideias.

A estreia nos círculos nova-iorquinos

A trajetória editorial de Sontag começou formalmente em 1963 com a ficção experimental O benfeitor, lançado pela conceituada Farrar, Straus & Giroux (FSG), casa de expoentes como T. S. Eliot, Edmund Wilson, Elizabeth Bishop e Flannery O’Connor. Três anos após a estreia literária, o mesmo selo colocava no mercado os 26 textos de Contra a interpretação, escritos entre 1961 e 1965 e previamente veiculados em veículos prestigiados como Partisan Review, Commentary e The New York Review of Books. Houve espaço até para publicações femininas: na revista Mademoiselle, sob a chamada “Opinion, Please”, saiu a versão embrionária e resumida de “Uma cultura e a nova sensibilidade”.

O volume de 304 páginas foi estruturado em cinco eixos. Nas pontas, figuram ensaios teóricos centrais como o que dá nome ao tomo e “Sobre o estilo”. Ao longo das páginas, surgem manifestos de época como “Notas sobre o camp”, análises de figuras essenciais do pensamento francês — a exemplo de Jean-Paul Sartre, Simone Weil, Albert Camus, Michel Leiris, Claude Lévi-Strauss, Nathalie Sarraute e Jean Genet, ao lado de György Lukács e Cesare Pavese —, além de reflexões cênicas e cinematográficas sobre Robert Bresson, Jean-Luc Godard, Alain Resnais, ficção científica e o experimental Flaming Creatures, de Jack Smith.

Sua inserção no meio intelectual deveu muito ao editor Roger Straus, comandante da FSG que transformou sua residência no epicentro da vanguarda nova-iorquina. Em meio àquelas “batalhas campais conhecidas como coquetéis”, William Phillips, cofundador da Partisan Review, conheceu a jovem ensaísta cuja timidez “assumia a forma de autoconfiança”. Ao ser questionado sobre o caminho para publicar na revista, Phillips registrou: “Tateando em busca de uma resposta rápida e espirituosa”, “respondi: ‘É só pedir’. ‘Está bem’, disse ela, ‘estou pedindo’.” Pouco tempo depois, no verão de 1962, ela estreava no periódico resenhando O escravo, de Isaac Bashevis Singer, apresentada como “uma jovem escritora que dá aulas no Barnard College e cujo primeiro romance será publicado em breve”.

Rompendo as amarras do ensaio tradicional

Ao assumir a coluna teatral Going to Theater na Partisan Review, antes ocupada por McCarthy, Sontag se inseriu em um reduto quase inteiramente masculino. Conforme delineou Irving Howe em 1968 na Commentary, o núcleo dos intelectuais de Nova York reunia pensadores com traços comuns: “Eles eram — ou, até pouco tempo antes, tinham sido — anticomunistas”. E completava: “Eram — ou, até algum tempo antes, tinham sido — radicais”, tendo como características fundamentais:

“Tinham uma predileção pela especulação ideológica; escreviam crítica literária com forte ênfase social; deleitavam­-se com a polêmica; esforçavam-se conscientemente para ser “brilhantes”; e, por nascimento ou por osmose, eram judeus.”

Como revelou Ronnie Grinberg na obra Write Like a Man: Jewish Masculinity and the New York Intellectuals (2024), apenas sete mulheres integraram essas três gerações do grupo entre as décadas de 1930 e 1960. Destas, apenas Susan Sontag e Hannah Arendt mantiveram total independência afetiva em relação aos homens daquele círculo.

Distanciando-se do tom professoral, Sontag tratava o ensaio com “a mesma naturalidade” de gêneros ficcionais, hábito herdado de sua “vida de leitora precoce e apaixonada”. Ao prefaciar a antologia The Best American Essays em 1992, ela resumiu sua visão sobre a plasticidade do formato:

“Um ensaio não é um artigo, uma meditação, uma resenha, uma memoir, uma dissertação, uma diatribe, uma anedota, um monólogo, um relato de viagem, uma coleção de aforismos, uma elegia, uma reportagem, ou… Não: um ensaio pode ser qualquer uma dessas coisas — ou várias delas ao mesmo tempo.”

A própria gênese de Contra a interpretação brotou do convívio pessoal. O livro é dedicado ao artista plástico Paul Thek, a quem Sontag definia como “a pessoa mais importante de minha vida”. Conforme relata o biógrafo Benjamin Moser, durante uma discussão amorosa, Thek teria exclamado: “Susan, pare, pare. Sou contra a interpretação. Não olhamos para a arte quando a interpretamos. Não é assim que se olha para a arte”. O artista, que mais tarde morreria vítima do HIV, seria homenageado novamente pela escritora nos anos 1980 na dedicatória de Aids e suas metáforas.

Impacto crítico e controvérsias políticas

Ao avaliar o livro de estreia de Sontag no The New York Times, Eliot Fremont-Smith notou que a novata vinha sendo aclamada com tamanho alarde que “em vez de simplesmente ser apresentada ao público, ela havia sido proclamada”. Embora apontasse irregularidades — destacando que “em certos momentos, sua prosa dá a impressão de ter sido traduzida do polonês” e que “em seus piores momentos, cerca de um terço deste livro, para dizer a verdade, [os ensaios] pouco esclarecem” —, o crítico reconheceu seu valor pioneiro: “em seus melhores ensaios, Susan Sontag realiza algo verdadeiramente novo: procura decifrar e descrever a própria sensibilidade em sua relação com novos fenômenos culturais”.

A faceta combativa se aprofundou em 1969 com A vontade radical (Styles of Radical Will), coletânea de oito ensaios elaborados entre 1966 e 1968, que sucedeu o romance Death Kit (1967). O volume incluía textos de peso como “A estética do silêncio”, estudos sobre cinema e posições políticas frontais, como a resposta “O que está acontecendo na América (1966)” e o diário “Viagem a Hanói”. William Phillips resumiu a recepção controversa afirmando que “Susan Sontag foi vítima de má crítica e de boa publicidade”, identificando nela “uma mistura de Che Guevara e Jean Genet” pela conjunção entre ousadia moral e militância.

A busca final pela ficção

Na fase madura, a autora procurou se afastar do ensaísmo combativo para priorizar a prosa ficcional. Além de Eu, etc. (I, etcetera, 1978), lançou os romances de fôlego O amante do vulcão (1992) e Na América (1999), obra que lhe rendeu o National Book Award.

Em suas anotações pessoais de 1980, confessou o cansaço do formato crítico: “Tenho de desistir de escrever ensaios porque isso inevitavelmente acaba se tornando uma atividade demagógica. Pareço ser a portadora de certezas que eu não tenho — não estou nem perto de ter”. Em 1983, ao falar com Amy Lippman, explicou que seus perfis de autores como Walter Benjamin e Elias Canetti já espelhavam essa transição: “Por trás deles há algo mais próximo do projeto da ficção: a descrição de uma sensibilidade individual, e não de uma sensibilidade em geral”.

Apesar da busca constante pela narrativa literária, a trajetória de Sontag encerrou-se com a força reflexiva que a projetou. Em 2003, um ano antes de sua morte aos 71 anos, publicou Diante da dor dos outros. Retomando o debate da imagem fotográfica à luz das guerras contemporâneas e dos atentados ao World Trade Center, o trabalho final coroou uma trajetória intelectual marcada pela independência e pela recusa a consensos fáceis.

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