Enquanto a expansão evangélica contemporânea atrai constantes análises, as raízes históricas do protestantismo no Brasil — fincadas ainda no século 19 por meio de missões norte-americanas e da imigração europeia — ganham agora um espaço inédito de preservação. Inaugurado solenemente na última quinta-feira (15), o Museu Presbiteriano Brasileiro chega para preencher uma lacuna de mais de um século e meio na guarda do patrimônio histórico evangélico nacional.
O novo polo cultural está instalado na sede da Fatipi (Faculdade de Teologia de São Paulo), situada na rua Genebra, 180, no tradicional bairro da Bela Vista, na região central da capital paulista. As portas estão abertas ao público de segunda a sexta-feira, das 10h às 16h, com entrada gratuita. Para quem deseja conferir as exibições aos sábados, o atendimento ocorre das 9h às 12h, mas exige agendamento prévio para visitas monitoradas.
Homenagem aos pioneiros
A instituição presta tributo ao reverendo professor Vicente Themudo Lessa (1874–1939), nome fundamental para a preservação da memória evangélica no país. Cofundador da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil em 1903, Lessa é considerado pelos historiadores o primeiro cronista oficial do protestantismo brasileiro.
Sua obra “Annaes da 1ª Egreja Presbyteriana de São Paulo (1863–1903)” tornou-se uma referência documental pioneira, recebendo elogios de pensadores e brasilianistas, a exemplo do historiador francês Émile G. Léonard, ex-professor da USP (Universidade de São Paulo) que também registrou a trajetória protestante em solo nacional. Além disso, o religioso era pai do renomado escritor e jornalista Orígenes Lessa (1903–1986), ocupante da cadeira nº 10 da Academia Brasileira de Letras e autor do clássico “O Feijão e o Sonho”.
Acervo histórico e educativo
Nas salas expositivas, o público encontra peças litúrgicas antigas, como cálices de santa ceia, vestes pastorais e púlpitos de madeira trabalhada. O local também guarda uma rica coleção de fotografias, documentos, retratos de pioneiros, livros raros e exemplares de periódicos que detalham a atuação da igreja na educação, na cultura e na fé.
O espaço ainda preserva o legado do pastor, professor e gramático Eduardo Carlos Pereira (1855–1923), figura central no ensino da língua pátria e autor da famosa “Gramática Expositiva”, adotada por cinco décadas no Colégio Pedro 2º. Engajado na causa abolicionista, ele escreveu para jornais como O Estado de S. Paulo e atuou como o principal articulador da fundação da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil em 1903.
Diálogo com a cidade
A escolha do bairro da Bela Vista conecta o museu diretamente ao eixo cultural e educacional paulistano, epicentro da expansão institucional protestante no final do século 19. A novidade enriquece o circuito de patrimônio histórico da metrópole, viabilizando a acadêmicos, estudantes e cidadãos uma melhor compreensão da diversidade religiosa que ajudou a moldar São Paulo.
A curadoria do acervo é comandada pelo pastor e historiador Éber Ferreira Silveira Lima, doutor em história pela Unesp. De acordo com ele, a criação do museu busca fomentar o intercâmbio cultural com a sociedade.
“O testemunho de um museu protestante mostra que as igrejas de tradição reformada têm, no espírito do Evangelho, uma história de relevantes contribuições à sociedade. Essa tarefa de construção de uma cidade mais justa, acolhedora e fraterna continua sendo um desafio para as igrejas protestantes e suas instituições”, concluiu o curador.
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