SPFW N61: Apartamento 03 

Spfw N61: Apartamento 03 aposta na maturidade e diversidade

Cultura

Poucos dias antes de encerrar a São Paulo Fashion Week N61, no domingo (18.10), Luiz Claudio Silva, fundador e diretor criativo da Apartamento 03, estava pensando sobre a idade de suas clientes: “Nossas apresentações têm meninas jovens, mas quem consome tem mais de 40 anos.”

Para diminuir essa distância, ele buscou modelos veteranas para sua nova apresentação. O casting inicial incluiu Claudia Liz, Monica Maligo, Marcelle Bittar, Patricia de Jesus, Carmelita e Marina Dias. No entanto, o criador percebeu rapidamente que a representatividade racial e de gênero — abrangendo mulheres trans e travestis — ainda é um elemento recente no universo da moda.

Essa reflexão o direcionou para a história de Stella do Patrocínio, que foi internada à força pela polícia aos 21 anos, em 1962. Ela passou a vida enclausurada em um hospital psiquiátrico até falecer, 30 anos mais tarde. Na visão atual de médicos, historiadores e psicólogos, a poeta jamais teria sido institucionalizada caso não fosse preta e pobre. Afinal, o envelhecimento é um privilégio negado a muitas pessoas, sobretudo à população negra e marginalizada.

Como resultado, a passarela do domingo (18.10) integrou nomes como a estilista Teodora Oshima, a maquiadora Cidoca Nogueira, Felisberta Bawar (cabeleireira e mãe da modelo Sheila Bawar) e a deputada federal Erika Hilton (PSOL).

Memória e sustentabilidade na passarela

Na década de 1980, os relatos de Stella foram gravados pela artista plástica Carla Guagliardi, que lecionava arte na instituição psiquiátrica onde a poeta vivia. Essas falas foram transcritas e lançadas no livro Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (2001). Agora, tais registros aparecem estampados em fitas costuradas junto às franjas que enfeitam diversas peças.

Além disso, Luiz aproveitou estoques parados em sua fábrica, a exemplo de rendas e amostras de fornecedores. Esse reaproveitamento resultou em patchworks multicoloridos aplicados em calças, jaquetas e vestidos. Resíduos têxteis passaram por novos processos de tingimento — com paetês em amarelo claro assumindo nuances profundas de verde e azul. A camisaria recebeu bordados de miçangas e canutilhos, enquanto o macramê e outros artesanatos foram sobrepostos aos visuais de alfaiataria.

Estética da imperfeição e acessórios

As marcas do tempo e as rugas celebram a imperfeição. O designer combinou materiais complexos de costurar em conjunto, tais como tule, malha, renda e tecidos revestidos de paetê, gerando itens propositalmente irregulares. Já os acessórios trouxeram referências ao kintsugi, método japonês que repara cerâmicas partidas utilizando laca e pó de ouro. Criados pelo designer Carlos Penna, os broches, anéis e brincos consistem em louças despedaçadas unidas por meio de liga metálica.

A vivência acumulada ao longo dos anos transformou-se em uma estética de power woman. Em termos de redes sociais, as mulheres do desfile podem ser definidas como lobas. A linha materializa a fase atual do criador, que revisita e aprimora suas criações com maior maturidade. Os vestidos plissados em camadas com efeito degradê ganharam leveza e sensualidade, ao passo que a alfaiataria exibe recortes assimétricos que acompanham o movimento do corpo.

Com essa entrega, o desfile consolida Luiz Claudio como um dos nomes mais consistentes da moda atual, combinando história, rigor técnico e uma estética marcante.

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