SUS precisa de plano de ação para não interromper atendimento de câncer em crise climática ou sanitária

SUS precisa de estratégia para proteger tratamento de câncer em crises

Saúde

Com desastres climáticos e emergências sanitárias cada vez mais comuns, o Brasil enfrenta o desafio de blindar o tratamento oncológico contra interrupções. Um alerta publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas aponta que o país precisa estruturar um planejamento de contingência para assegurar a continuidade dos cuidados a pacientes com câncer em momentos críticos.

O estudo é assinado por especialistas da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), do Instituto Nacional de Câncer (Inca), da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), além de sociedades médicas e organizações de pacientes.

O conteúdo consolida diretrizes debatidas em uma oficina realizada em dezembro de 2025, no Rio de Janeiro. A proposta central é inserir a oncologia nos planos oficiais de resposta a desastres no país, integrando um comitê permanente e um fundo de emergência para blindar o diagnóstico e as terapias contra colapsos operacionais.

Lições da pandemia e de desastres naturais

No momento mais crítico da crise sanitária global, em maio de 2020, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou uma queda superior a 80% na realização de mamografias e exames de papanicolau, enquanto as biópsias despencaram quase 70%. Já as cirurgias voltadas ao câncer recuaram cerca de 25% durante a primeira onda. Cenário semelhante de ruptura ocorreu nas inundações que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.

“A ideia é que, quando a crise chega, alguém precisa olhar especificamente para o câncer. Na pandemia, não havia diretrizes nacionais específicas para o cuidado oncológico em situações de crise, e as decisões variaram muito entre estados e serviços”, diz a pesquisadora Heloise Fernandes Agreli, da Iarc, autora principal do artigo.

Segundo ela, a criação de uma instância técnica permanente dentro da rede pública — coordenada pelo Ministério da Saúde e pelo Inca — garantiria uma liderança técnica bem definida e regras claras de sucessão, blindando a gestão contra mudanças de governo.

Dados do Inca mostram que o rastreamento oncológico só retomou os patamares anteriores à crise sanitária em 2022. “Voltar ao patamar não significa recuperar o que deixou de ser feito”, pontua Agreli, destacando que há uma demanda reprimida que se acumula diante do avanço esperado de novos casos nos próximos anos.

Impactos e dificuldades de medição

Para a oncologista Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e coautora do trabalho, a queda acentuada nos exames preventivos gerou forte temor sobre diagnósticos tardios, embora ainda falte um levantamento nacional capaz de mensurar esse reflexo com exatidão ou relacioná-lo unicamente ao período pandêmico.

A médica explica que os reflexos na mortalidade exigem um horizonte de anos para serem avaliados com precisão. “O que o artigo reforça é que atrasos em diagnóstico e tratamento têm consequências diretas e que precisamos de sistemas preparados para monitorar essas interrupções em tempo real e com agilidade para se adaptar”, afirma.

Em 2020, os óbitos de pacientes oncológicos decorrentes de outras causas, a exemplo da Covid-19, subiram 82% em comparação à fase anterior à pandemia. Por outro lado, um levantamento focado no intervalo entre 2020 e 2022 apontou uma taxa de mortalidade por câncer cerca de 5% inferior à projetada.

Para Agreli, os dados não se contradizem: muitos enfermos de câncer faleceram em decorrência da infecção, registro que frequentemente prevalece como a causa principal do óbito. No caso das enchentes gaúchas, não há consolidação estatística de falecimentos ou atrasos, mas relatos de profissionais confirmam barreiras severas de acesso. “Um centro de radioterapia pode estar funcionando perfeitamente, mas, se o paciente não consegue chegar, o tratamento para do mesmo jeito”, ressalta a pesquisadora.

A urgência de um compromisso de Estado

A psicóloga Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia e colaboradora da pesquisa, enfatiza que a continuidade do tratamento precisa ser garantida independentemente das adversidades externas. “Essa continuidade precisa ser um compromisso de Estado.”

Ela complementa: “Para quem está tratando um câncer, uma interrupção pode significar perder uma sessão, ficar sem medicamento, não conseguir chegar ao hospital ou não saber onde buscar atendimento. E isso pode comprometer o tratamento, além de trazer uma insegurança enorme para a pessoa e para a família.”

Para Baldotto, o estabelecimento prévio de um plano regional de contingência traria enorme diferença, contemplando rotas alternativas de transporte, centros de atendimento secundários, estoques estratégicos, comunicação integrada e mecanismos ágeis para localizar pacientes em terapia ativa.

Atribuições do comitê e priorização de atendimento

O comitê técnico sugerido no estudo teria três missões principais: inserir a oncologia nas pautas da defesa civil e da regulação de leitos desde o início; estabelecer quais serviços são inegociáveis e o tempo limite de adiamento para exames; e coordenar comitês regionais, considerando que uma enchente na região Sul e uma seca na Amazônia demandam estratégias distintas.

Outra recomendação consiste em estipular previamente critérios para a priorização de leitos, fármacos e radioterapia diante de cenários de escassez. A escolha, diz Agreli, não pode “cair no colo dos profissionais de saúde na ponta, sozinhos, no meio do caos”.

A recomendação é que a triagem considere a agressividade do tumor, a janela temporal em que a intervenção terapêutica ainda surte efeito e as populações historicamente vulneráveis, como moradores de regiões distantes de polos especializados.

O estudo também aconselha a adaptação de terapias para administrações orais ou domiciliares quando viável, o emprego de unidades móveis em regiões isoladas, a garantia de energia de reserva para climatização de remédios e a formação de estoques estratégicos.

Contudo, barreiras estruturais persistem no SUS. “Muitos medicamentos orais modernos ainda não estão amplamente disponíveis. Essa estratégia precisa vir acompanhada de políticas de acesso, estoque, financiamento e logística. Não pode depender apenas de mudar a via de administração em momentos de crise”, avalia Baldotto.

Integração de redes e financiamento

Embora o foco recaia sobre a saúde pública, a médica aponta que eventos críticos afetam igualmente o setor privado, comprometendo o transporte, a infraestrutura hospitalar, a mão de obra e a cadeia de suprimentos. “Em uma crise real, não faz sentido planejar SUS e saúde suplementar como sistemas completamente separados. Em geral, um passa a depender do outro”, declara.

Os autores recordam que o investimento governamental responde por cerca de 45% dos gastos totais em saúde no Brasil, enquanto a média dos países da OCDE atinge 75%. Frente a esse subfinanciamento crônico, o grupo propõe a criação de fundos de emergência alimentados por receitas vinculadas a impostos sobre álcool e tabaco — modelo já aplicado em nações como Tailândia e Filipinas. Até o momento, não há projeção de arrecadação para o contexto brasileiro.

A iniciativa voltada à saúde pública conta com o respaldo da Umane, associação civil voltada ao apoio de projetos voltados à promoção do bem-estar sanitário.

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *