As contradições sociais e políticas da América Latina são o ponto de partida de “Cuba”, lançamento do rapper, compositor, produtor musical e realizador audiovisual Tairec, de Juiz de Fora, em Minas Gerais.
Escrita e produzida há quatro anos, durante o governo de Jair Bolsonaro, a faixa ganhou clipe feito em colaboração com o canal no YouTube “Assim Disse o João”, de João Carvalho, e chegou ao público em um momento em que questões como soberania nacional, desigualdade social, racismo e influência dos Estados Unidos atravessam o debate político brasileiro e latino-americano.
O refrão “Eu vou-me embora pra Cuba” ressignifica a expressão “vai para Cuba”, historicamente utilizada para ridicularizar defensores de políticas sociais. Na música, a ideia de partir funciona como resposta ao esgotamento de quem enfrenta uma realidade marcada pela exploração do trabalho e sua precariedade, além da desigualdade social.
A perspectiva é a do jovem trabalhador preto e periférico que, diante das contradições do sistema, sempre “paga o pato”. A crítica também alcança um modelo de progresso associado ao consumo e à acumulação de bens, enquanto as condições concretas de vida seguem atravessadas por violência e insegurança.
Tairec, na letra, contrapõe a realização humana à promessa de felicidade sustentada pelo poder de compra, questionando os valores que orientam a sociedade. Embora tenha sido composta anos antes de sua estreia, “Cuba” dialoga com acontecimentos recentes que recolocam a ilha caribenha no centro das disputas geopolíticas.
Em 2026, o agravamento da crise energética cubana, em meio às restrições ao fornecimento de petróleo impostas pelos Estados Unidos e à interrupção do abastecimento venezuelano após a intervençãoamericana na Venezuela, intensificou os apagões e as dificuldades enfrentadas pela população.
Nesse contexto, a música expande seu alcance ao abordar a pressão dos Estados Unidos sobre a América Latina e os limites da autonomia política e econômica dos países da região. No Brasil, as relações entre integrantes da família Bolsonaro e Washington também alimentam discussões sobre soberania nacional e influência estrangeira no cenário político, especialmente no contexto eleitoral de 2026.
A dimensão geopolítica se articula à crítica racial e de classe que atravessa a obra. Em uma das cenas mais emblemáticas do clipe de “Cuba”, um jovem preto dança enquanto pisa deliberadamente sobre a bandeira dos Estados Unidos. O gesto representa o enfrentamento ao poder americano e aproxima a discussão sobre imperialismo das experiências cotidianas de populações negras e periféricas.
O vídeo incorpora nomes atuais do debate político brasileiro, como Jones Manoel, deputado federal eleito pelo PSOL de Pernambuco. Em colagem que atravessa diferentes períodos das lutas comunistas, socialistas e antirracistas, Tairec ainda reúne figuras como Karl Marx, Vladimir Lenin e Rosa Luxemburgo a Che Guevara, Beatriz Nascimento e Angela Davis.
Em “Cuba”, Tairec reivindica essa tradição para questionar a ideia de que a música deve se manter afastada dos conflitos sociais e políticos. Confira o clipe logo abaixo!
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