Uma companhia israelense de tecnologia publicitária aproveitou a exibição de anúncios digitais para mapear e localizar usuários do serviço de internet via satélite Starlink em mais de 100 países, conforme apontaram investigações recentes de segurança digital.
A revelação veio à tona após um estudo conduzido pela TrendAI, divisão de cibersegurança da japonesa Trend Micro, que contou com a validação de entidades como o Citizen Lab e a Confiant. De acordo com as apurações, a empresa responsável pela prática é a Discover-Tech.
O método consistia em explorar o ecossistema de leilões em tempo real de publicidade na web. Sempre que um internauta acessava sites ou aplicativos, leilões dinâmicos determinavam qual anúncio seria exibido. Essa mecânica técnica transmite automaticamente dados cruciais — como o tipo de aparelho, o endereço de rede e a posição geográfica exata — para múltiplos compradores simultâneos.
Conforme o relatório da TrendAI, a Discover-Tech conseguiu um volume desproporcionalmente alto de arremates em redes de tráfego da Starlink globalmente, superando de maneira expressiva qualquer média de rivais do mercado. Especialistas apontam que a tática funcionava como uma verdadeira estrutura de espionagem digital.
Uso em zonas de conflito e resposta do mercado
Operada pela SpaceX, a internet da Starlink desempenha um papel vital em locais onde a infraestrutura terrestre colapsou ou onde governos aplicam forte censura digital. Militares ucranianos, por exemplo, dependem da ferramenta para manter comunicações na linha de frente e articular ações estratégicas.
Apesar disso, a privacidade oferecida pela tecnologia também despertou o apetite de governos e agentes estatais interessados em vigiar esses pontos de acesso. O monitoramento de tráfego indicou que a empresa investigada abocanhou fatias massivas de leilões de anúncios em nações sob guerra ou sanções, tais como Síria, Líbia, Iêmen e Sudão do Sul — locais onde o interesse por marcas ocidentais e campanhas comerciais genuínas é praticamente inexistente.
O Citizen Lab, vinculado à Universidade de Toronto, e a Confiant atestaram de forma autônoma que a Discover-Tech burlou as regras do ecossistema de publicidade programática.
“A coleta contínua de dados de lances em tempo real permite que um comprador persistente desanonimize usuários, cruze informações de localização e mapeie passos pela web com precisão alarmante”, identificaram os pesquisadores do Citizen Lab e da Confiant, em nota conjunta.
Logo após a repercussão do caso, gigantes tecnológicas agiram para conter a falha. Companhias como Google e Comcast baniram a Discover-Tech de seus ecossistemas de anúncios. Paralelamente, governos e corporações globais iniciaram varreduras internas para checar se colaboradores que empregam conexões via satélite acabaram sendo vigiados.
Até o momento, a SpaceX e os porta-vozes da Discover-Tech optaram por não se manifestar aos questionamentos da imprensa. Analistas de segurança alertam que o aproveitamento de redes publicitárias para espionagem expõe uma vulnerabilidade alarmante na privacidade mundial, ameaçando a segurança de jornalistas, defensores de direitos humanos e trabalhadores humanitários em territórios perigosos.
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