Uma realidade estarrecedora

Família concentra 63% dos estupros de vulneráveis no Brasil

Cultura

No Brasil, cerca de 63% dos crimes de estupro de vulnerável acontecem dentro do próprio núcleo familiar. O dado estarrecedor evidencia a complexidade de um problema que prospera no silêncio e desafia os mecanismos de proteção a crianças e adolescentes, tema central do livro Educar para proteger, escrito pela advogada e professora da PUC-SP Luciana Temer.

A dificuldade em transformar pedidos de socorro em providências concretas reflete um padrão frequente. No filme norte-americano Temporário 12 (2013), por exemplo, uma jovem em um abrigo expõe agressões sistemáticas por meio de uma metáfora desenhada sobre um polvo devorado por um tubarão. Ao tentar intervir, a supervisora é desautorizada pela direção sob o argumento de que não lhe cabia “interpretar lágrimas” ou tirar conclusões a partir de ilustrações. Romper essa barreira de negligência e oferecer uma escuta atenta que valide o sofrimento das vítimas é uma necessidade imediata para interromper ciclos contínuos de abuso.

A prevenção como ferramenta essencial

Fundadora do Instituto Liberta, criado em 2017 para enfrentar a violência sexual infanto-juvenil, Temer pontua que antecipar-se à ocorrência do crime é uma medida muito mais eficiente do que agir apenas após a consumação do dano. Diante do emudecimento social, ressoa a inquietação da especialista: “Por que ainda não falamos disso?”.

Com a bagagem de quem já atuou como delegada de polícia e secretária nas esferas municipal e estadual, a autora enfatiza que a transformação desse cenário exige engajamento cívico. “Um problema dessa dimensão não se resolve sem políticas públicas, e políticas públicas se constroem com pressão social”, escreve Temer em sua obra.

Parte do enfrentamento passa pela correta aplicação das leis. Tecnicamente, qualquer conduta de cunho sexual praticada contra menores de catorze anos caracteriza estupro de vulnerável, independentemente de ter havido ou não conjunção carnal. A banalização ou a recusa em enquadrar determinados abusos com a devida gravidade muitas vezes resulta em penas atenuadas nos tribunais, fragilizando a justiça.

Ambientes digitais e barreiras à informação

Além das situações de exploração sexual marcadas pela dependência material e relações de poder desiguais, os perigos ganham novos contornos no meio virtual. A monetização baseada em algoritmos potencializa abusos, como apontado no estudo “Conteúdos extremos nas redes sociais: atrocidades no Discord”, elaborado por Letícia Oliveira e Tatiana Azevedo. Para combater esse avanço, reforça-se o papel de diretrizes legais atualizadas, como o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital, Lei nº 15.211/2025).

A informação segue como a principal linha de defesa. Já no início do século passado, Sigmund Freud alertava para a relevância do diálogo honesto sobre a sexualidade. “O que queremos alcançar quando privamos as crianças desses esclarecimentos sobre a vida sexual humana?”, indagou o psicanalista em correspondência pública em 1907.

Em pleno ano de 2026, porém, a abordagem de conteúdos ligados ao corpo humano e à diversidade ainda enfrenta fortes barreiras ideológicas e recuos políticos sob a justificativa de preservação familiar — ambiente que, contraditoriamente, lidera as estatísticas de ocorrências de violência. Tratar essas violações sob uma ótica puramente moral ou individual, como ilustrado no romance distópico Os testamentos, de Margaret Atwood, mascara os fatores estruturais do problema e mantém crianças expostas à vulnerabilidade e ao desamparo.

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