Brasil: nunca mais

Brasil: nunca mais e o peso da história na política atual

Cultura

O título parecia um veredito final, irrecorrível: Brasil: nunca mais.

Nunca mais um regime autoritário. Nunca mais um país torturando seus cidadãos. Nunca mais uma criança forçada a ver o pai seviciado. Nunca mais uma mãe obrigada a reconhecer o corpo do filho assassinado num quartel.

No entanto, Flávio Bolsonaro recebeu 56 milhões de votos no primeiro turno das eleições presidenciais.

Cinquenta e seis milhões de pessoas que, com maior ou menor consciência, dão de ombros à defesa da ditadura militar pelo candidato. Defesa não, exaltação: aqueles militares, repete, deveriam ser “tratados como heróis”.

(Não é coincidência: as milícias cariocas, também celebradas por ele, surgiram com agentes da repressão fazendo frila de justiceiros.)

O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador-chefe do DOI-Codi, merece elogios especiais. “Um homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel ao defender a pátria”, reverencia Flávio no livro que escreveu sobre o pai.

(Foi Jair quem inaugurou a trend de louvar publicamente o carniceiro, com seu infame voto pelo impeachment de Dilma Rousseff.)

Mais conhecido pelo codinome Tibiriçá, o algoz favorito da família Bolsonaro é um dos 444 acusados na lista elaborada pelo projeto Brasil: Nunca Mais.

A empreitada clandestina reuniu, entre 1979 e 1985, cerca de 1 milhão de páginas de documentos da Justiça Militar. A barbaridade era descrita com todas as letras nos inquéritos oficiales.

Com a redemocratização, o livro homônimo foi lançado, embora sem a lista — o clima político ainda era tenso demais para dar nome aos bois nas livrarias.

Minha edição é de 1986, já na 17ª reimpressão, tamanha sua repercussão. Li mais ou menos na mesma época em que descobri O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira, e Os carbonários, de Alfredo Sirkis. Todos mais necessários do que nunca.

Neste domingo, não se engane. A eleição é entre o candidato do Brasil: nunca mais e o candidato do “Brasil: outra vez”.

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