Voto feminino é conquista histórica que amplia o debate sobre democracia na escola

Voto feminino na mira: como a escola debate essa conquista histórica

Educação

As mulheres constituem a maioria do eleitorado no Brasil, contudo, continuam a lidar com discursos que menosprezam sua atuação política. De acordo com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), elas representam 52,84% dos eleitores aptos para as eleições de 2026. Paralelamente a isso, plataformas digitais disseminam contestações sobre a capacidade feminina de escolher representantes, além de manifestações contrárias ao próprio direito de comparecer às urnas.

Diante desse cenário, surge um questionamento fundamental para as instituições de ensino: de que maneira auxiliar os alunos a compreender e defender uma vitória histórica que segue sofrendo contestações?

Durante o mês de junho, o influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo declarou que mulheres “votam estatisticamente muito mal”, com ênfase nas solteiras. Por sua vez, Pietra Bertolazzi, que acumula mais de 1 milhão de seguidores, manifestou oposição ao sufrágio feminino. Em entrevista recente concedida à BBC News Brasil, ela relacionou sua postura à rejeição do Estado moderno e ao apoio à monarquia, embora tenha negado o intuito de cassar o direito das mulheres ao voto.

Tais episódios não indicam qualquer embasamento jurídico para a supressão do voto das mulheres. A Constituição Federal de 1988 garante o sufrágio universal e protege o voto direto, secreto, universal e periódico contra propostas de emenda que visem sua extinção.

Para os profissionais da educação, o obstáculo pedagógico reside em assimilar tanto tal salvaguarda quanto os argumentos que tentam desacreditar a presença feminina na esfera pública.

Uma vitória coletiva

No território brasileiro, o direito ao voto das mulheres obteve reconhecimento por meio do Código Eleitoral de 1932, sendo posteriormente integrado à Constituição de 1934. Sob a ótica da historiadora Mônica Karawejczyk, especialista na temática do sufrágio feminino, o ensino dessa trajetória demanda dar visibilidade às cidadãs que se articularam para mudar a legislação. Sua recomendação consiste em transferir o protagonismo da assinatura de Getúlio Vargas para os protestos que antecederam tal ato.

Manifestos, artigos veiculados na imprensa, fundações de associações e articulações internacionais integraram tal trajetória. Bertha Lutz sobressai como uma das figuras centrais desse processo: cientista e fundadora da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino no ano de 1922, ela lutou pelos direitos políticos femininos e dialogou com lideranças estrangeiras.

Mônica igualmente ressalta o papel da professora Leolinda Daltro e de outras expoentes de coletivos femininos. Para a historiadora, resgatar os movimentos que sustentaram tais demandas previne a redução de uma história de luta conjunta a uma única individualidade.

A pesquisadora também aponta paralelos entre as justificativas atuais e aquelas empregadas outrora para afastar o público feminino das urnas. “A alegação de que seriam excessivamente emocionais, a desqualificação de suas escolhas e o temor de que a participação pública prejudicasse a família já aparecem nessa história de resistência à ampliação de direitos.”

O que são sufrágio, sufragismo e sufragistas?

Sufrágio é o direito de participar das decisões políticas por meio do voto. Sufragismo é o movimento que defende a ampliação desse direito e ficou especialmente associado à luta pelo voto feminino. As sufragistas eram ativistas que reivindicavam o direito das mulheres de votar e participar da vida política. O movimento ganhou força no século 19, especialmente nos Estados Unidos e no Reino Unido. No Brasil, lideranças como Bertha Lutz e Leolinda Daltro participaram das mobilizações que contribuíram para o reconhecimento nacional do voto feminino em 1932.

O livro “O voto feminino no Brasil”, escrito por Teresa Cristina de Novaes Marques, propicia um entendimento aprofundado acerca dessas querelas. Uma normativa anterior ao Código Eleitoral condicionava o voto de mulheres casadas à permissão do cônjuge, enquanto o de solteiras e viúvas dependia da comprovação de renda própria. Tais exigências específicas caíram do texto validado em 1932 em decorrência da pressão exercida pelas sufragistas.

Contudo, a oficialização em âmbito nacional não extinguiu todas as margens de exclusão. O critério de alfabetização permaneceu vigente, de modo que os analfabetos recuperaram a prerrogativa do voto apenas em 1985, já no contexto da redemocratização pós-ditadura militar. Conforme pontua Mônica, “barreiras de escolaridade impediam que a conquista alcançasse todas as mulheres da mesma maneira”.

No ambiente escolar, a historiadora sugere uma inversão nos questionamentos propostos. Em vez de indagar unicamente o ano em que as brasileiras obtiveram o voto, os docentes podem estimular uma investigação acerca dos motivos que fizeram transcorrer mais de cem anos entre a Independência do país e a legitimação oficial da cidadania eleitoral feminina. Desse modo, o marco temporal funciona como ponto de partida para a compreensão da exclusão.

Maioria no eleitorado, minoria na representação

Possuir o direito de sufrágio tampouco garante assento proporcional nos postos de poder. Nas eleições de 2026, registraram-se 109 deputadas federais eleitas, superando as 90 registradas em 2022. Elas ocuparão cerca de 21% das 513 vagas na legislatura com início previsto para 2027. O progresso ainda evidencia uma distância considerável frente à proporção de mulheres no eleitorado.

O fenômeno não se restringe ao Brasil. O cenário global igualmente dista da paridade: dados da União Interparlamentar mostram que as mulheres detinham 27,5% das cadeiras nas instâncias legislativas nacionais em 2026, considerando as diversas casas parlamentares. O índice havia avançado somente 0,3 ponto no intervalo de um ano.

Convém pontuar que tais estatísticas não traduzem uma uniformidade de visões políticas entre as mulheres. Natália Gil, docente de história da educação na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), enfatiza que a prerrogativa do voto prevalece independentemente do posicionamento político de cada eleitora. “As mulheres conservadoras vão votar e votam no que querem e no que pensam. As mulheres progressistas vão votar e votam no que querem e no que pensam.”

Para a acadêmica, o debate deve abranger toda a classe estudantil. “Porque a proibição do voto feminino não é uma questão das mulheres: é uma questão de que sociedade queremos.” A defesa da participação exige o entendimento de que indivíduos com vivências e interesses plurais possuem a prerrogativa de manifestá-los.

Direitos e violência: o que os dados ajudam a discutir

Os ataques direcionados ao sufrágio universal integram uma discussão mais ampla acerca dos direitos femininos, exigindo a distinção entre diferentes posicionamentos. Eduarda Campopiano (PL), deputada estadual eleita em São Paulo, declarou avalizar o voto feminino em sabatina veiculada em outubro. A parlamentar, contudo, rotula-se como antifeminista e questiona a tipificação penal do feminicídio.

O levantamento “Retrato dos feminicídios no Brasil”, lançado em março de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, contabilizou 1.568 casos no decorrer de 2025. O estudo também analisou 5.729 ocorrências de feminicídio registradas entre 2021 e 2024: desse total, 29,4% das vítimas tinham idades entre 18 e 29 anos, e 62,6% eram mulheres negras.

A professora Gina Vieira Ponte argumenta que inserir tal debate na escola demanda o enfrentamento de discursos negacionistas da violência contra a mulher por meio de pesquisas e dados checados. “E é importante reforçar: esses temas precisam ser trabalhados e sustentados em dados científicos.” Educadora atuante no Distrito Federal, Gina integrou o rol de homenageados na mostra comemorativa aos dez anos do portal Porvir, ocorrida em 2022 no Museu Catavento, situado na capital paulista.

No percurso profissional da professora, tal debate emergiu de situações vividas pelas próprias alunas: episódios de violência, evasão escolar e perspectivas limitadas quanto ao futuro das jovens. Tais incômodos impulsionaram a criação do projeto “Mulheres Inspiradoras”, que une leitura, escrita e resgate das trajetórias femininas.

Que futuro as meninas conseguem imaginar?

Por meio da iniciativa, Gina introduziu na rotina da turma obras e biografias de mulheres para expandir o repertório acessível aos discentes. “Eu queria que as meninas tivessem sonhos maiores”, relata. A docente almejava demonstrar às alunas a viabilidade de atuarem como pesquisadoras, escritoras, atletas, juristas e ativistas.

A estratégia contemplava igualmente os rapazes, convidados a desconstruir estereótipos que reduzem as mulheres a meros objetos sexuais. A leitura conjunta e a troca de ideias propiciaram discussões sobre o reflexo de tais representações nas expectativas, interações sociais e oportunidades.

Ao pautar a inserção das jovens, torna-se imperativo ponderar as distinções internas a esse grupo. Jennifer Azambuja de Morais, docente de ciência política na UFRGS, aponta ao examinar o engajamento juvenil que “a gente não pode falar de juventude no singular, mas sim de juventudes”. Fatores socioeconômicos, o tipo de instituição de ensino e os desafios cotidianos moldam a relação com a política.

A investigadora nota que o ativismo pode se manifestar em protestos de rua e ambientes virtuais, prescindindo de filiação partidária formal. Ela também alerta para a percepção de que a política institucional falha em responder às demandas práticas da juventude. Ao debater o engajamento das meninas, tal prisma suscita um questionamento: quais espaços elas encontram para expor ideias, formular propostas e verificar o atendimento de suas reivindicações?

Natália complementa que as novas gerações dispõem de vivências irredutíveis à perspectiva adulta. “A juventude enxerga coisas que as pessoas mais velhas não enxergam.” Desse modo, o resgate histórico das sufragistas pode se vincular ao debate sobre quem detém espaço de fala no presente.

Da história às experiências em sala de aula

O percurso pedagógico pode iniciar-se pela análise de fontes históricas. A obra de Teresa Cristina, disponibilizada gratuitamente para download, traz registros fotográficos, documentação oficial e biografias que ilustram a organização feminina secular na busca por direitos políticos no Brasil. O compêndio destaca nomes como Almerinda Farias Gama, atuante como delegada sindical na escolha de representantes classistas para a Assembleia Constituinte de 1933.

Com o apoio de tais recursos, os estudantes identificam os atores por trás das reivindicações, os argumentos contrários e os segmentos femininos mantidos à margem da participação. A recomendação de Mônica consiste em examinar o panorama de restrições e condições de vida anteriores à conquista, viabilizando a compreensão dos interesses em disputa.

Outra alternativa pedagógica reside no cotejo entre argumentos históricos e narrativas contemporâneas. Em vez de simplesmente exibir um material midiático polêmico, o educador tem a autonomia de orientar a apuração: quem emite o discurso, sob qual contexto, quais evidências sustenta e que generalizações faz acerca do público feminino? A turma confronta as premissas com documentos, investigações científicas e a legislação vigente.

A referida metodologia alinha-se à perspectiva defendida por Jennifer: o letramento político deve caminhar lado a lado com a educação midiática. A pesquisadora menciona o emprego de periódicos, produções cinematográficas, debates e simulações de escolha de representantes como ferramentas para aproximar os alunos da vivência democrática. “Esses conhecimentos são essenciais para fortalecer os valores democráticos dos jovens.”

A temática possui respaldo curricular garantido. Sancionada e em vigor desde 2025, a Lei 14.986/2024 estabeleceu a obrigatoriedade de conteúdos fundamentados nas vivências e perspectivas femininas nos ensinos fundamental e médio. A legislação ainda instituiu a Semana de Valorização de Mulheres que Fizeram História nas redes de educação básica.

No entendimento de Natália, cabe ao corpo docente expor saberes e dilemas que auxiliem os discentes na formulação de conclusões próprias. O processo abrange a discussão sobre os beneficiários da restrição de espaço a determinado grupo, além do reconhecimento de avanços e retrocessos temporais. “Porque nada que foi conquistado está garantido para sempre.”

A diretriz sugerida por Gina mescla tal repertório conceitual com o exercício da escuta. O contato com figuras femininas transformadoras da realidade social alarga o horizonte de expectativas das alunas, abrindo brechas para questionamentos e proposições que inauguram a participação cívica no cotidiano escolar.

Ao examinar as causas das restrições históricas ao voto feminino e as estratégias de superação adotadas pelas mulheres, os estudantes compreendem a correlação entre escolhas individuais e vitórias coletivas. A história do sufrágio inaugura, assim, um diálogo acerca das oportunidades de participação acessíveis a cada geração – e daquelas que ainda exigem construção.

Natália sintetiza a essência comunitária inerente ao voto: “O meu voto é um só, mas é um voto que se soma com o de outras pessoas que estão com as mesmas inquietações que eu tenho, com o mesmo incômodo que eu tenho, as mesmas esperanças que eu tenho.”

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *