Uma nova vacina de RNA mensageiro (mRNA) desenvolvida pelas farmacêuticas Moderna e MSD diminuiu em 42% o risco de recidiva ou morte por melanoma quando combinada com imunoterapia, conforme dados divulgados pelas empresas. Chamado de intismeran autogene, o imunizante experimental é projetado para evitar o retorno da doença após a cirurgia de retirada do tumor e foi avaliado em um estudo de fase 3 que contou com 1.137 pacientes.
O melanoma é o tipo mais agressivo de câncer de pele devido à sua alta capacidade de provocar metástases, espalhando-se para órgãos vitais como pulmões, fígado, cérebro e ossos. Embora os casos iniciais diagnosticados precocemente apresentem excelentes chances de cura por meio de cirurgia, a nova abordagem terapêutica busca justamente blindar o organismo contra o retorno da moléstia. Diferente dos imunizantes convencionais preventivos, o intismeran atua estimulando o sistema de defesa contra um tumor já existente.
Como atua a vacina personalizada As células tumorais derivam do próprio corpo e frequentemente driblam o sistema imune. No entanto, elas exibem pequenos fragmentos proteicos em sua superfície chamados de neoantígenos. A oncologista Clarissa Baldotto, presidente da Sboc (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica), explica que essas diferenças permitem que o organismo reconheça a ameaça.
Para fabricar a vacina, os cientistas sequenciam o DNA de uma amostra do tumor operado para rastrear mutações exclusivas do câncer. Desse mapeamento, 34 neoantígenos são selecionados para compor o produto de RNA mensageiro sob medida. Ao ser administrado, o imunizante orienta as células a produzirem tais fragmentos, treinando os linfócitos T para caçarem o tumor, um mecanismo conceitualmente próximo ao aplicado nas vacinas contra a Covid-19.
Ação conjunta com a imunoterapia O tratamento é administrado em conjunto com o pembrolizumabe, conhecido comercialmente como Keytruda, um imunoterápico aplicado há cerca de dez anos no Brasil para quadros de pulmão, mama, bexiga e melanoma, conforme aponta o oncologista Tiago Kenji, do Hospital Santa Paula, da Rede Américas.
O fármaco bloqueia a proteína PD-1 presente nos linfócitos T, impedindo que os tumores burlem a vigilância imunológica e desliguem a resposta de defesa. Assim, a vacina orienta o alvo exato para as células de defesa, enquanto o imunoterápico assegura que a resposta do organismo permaneça ativa. Essa mesma associação já é investigada para outras malignidades, a exemplo de cânceres de pulmão, rim e bexiga.
Previsão de chegada ao mercado Apesar do avanço e da aceitação dos dados na revista científica New England Journal of Medicine, o artigo ainda carece de publicação oficial e a vacina segue restrita ao ambiente de pesquisas clínicas.
Os fabricantes preparam um pedido de aval nos Estados Unidos. À Reuters, o presidente-executivo da Moderna, Stéphane Bancel, afirmou que a expectativa é lançar a vacina em 2027. No Brasil, o cronograma ainda é incerto e dependerá de uma futura análise e liberação por parte da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
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