Plano de Trump para aumentar exportações de carne dos EUA fica abaixo do esperado

Plano de Donald Trump para baratear carne bovina decepciona

Mercados

Na metade da iniciativa de três meses do presidente Donald Trump para importar mais carne bovina destinada à produção de carne moída e reduzir os preços, pouco volume adicional entrou no país, e os preços mal se mexeram.

Em agosto, Trump assinou um decreto que permitia a entrada nos Estados Unidos de 300 mil toneladas métricas de aparas de carne bovina magra com uma tarifa reduzida. O volume adicional poderia ser importado ao longo de 90 dias, com até 100 mil toneladas métricas por mês em setembro, outubro e novembro.

Mas apenas 37.486 toneladas métricas dessa carne entraram no país em setembro, segundo dados da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos —pouco mais de um terço do volume permitido. A situação não melhorou muito em outubro: até o dia 19, haviam entrado apenas 21.937 toneladas métricas.

Impacto político e reação dos pecuaristas

A falta de adesão pode ser um revés para os candidatos republicanos nas eleições de meio de mandato. Trump afirmou neste mês que os preços da carne bovina “realmente se tornaram inaceitáveis para o eleitor” e vem tentando reduzi-los sem perder o apoio de produtores rurais e pecuaristas —normalmente um bloco eleitoral fiel aos republicanos.

Entidades que representam pecuaristas criticaram o plano do presidente de importar carne bovina, alegando que ele reduziria o valor recebido pelo gado; os preços do gado vivo caíram 3,4% no dia em que o decreto foi assinado. Os pecuaristas disseram que a ameaça de Trump intervir no mercado sempre que os preços subissem aumentava a probabilidade de enviarem novilhas e vacas para o abate, em vez de correrem o risco de mantê-las para ampliar o rebanho.

“Temo que estejam tentando resolver um problema de curto prazo com os preços da carne bovina e, com isso, acabem criando problemas de longo prazo para a oferta de gado”, disse Ford Drummond, presidente da Associação de Pecuaristas de Oklahoma. Desde então, os preços do gado se recuperaram.

Preços ao consumidor e justificativa do governo

Também há poucos indícios de que algum desconto significativo tenha chegado aos consumidores, depois que Trump “incentivou” os importadores a vender a carne com 25% de desconto. O preço médio de uma porção de cerca de 500 gramas de carne moída caiu 1,9% em setembro, de US$ 6,92 para US$ 6,79, segundo o Escritório de Estatísticas do Trabalho. Um ano antes, uma libra custava US$ 6,32.

Questionada sobre por que a cota de importação não estava sendo preenchida, Anna Kelly, porta-voz da Casa Branca, afirmou em comunicado que Trump está “cumprindo sua promessa aos consumidores ao reduzir os preços da carne bovina e, ao mesmo tempo, permitir que nosso rebanho bovino americano cresça”.

Ela também disse que o presidente havia “feito mais pela agricultura americana do que qualquer outra pessoa”. O Departamento de Agricultura e a Alfândega e Proteção de Fronteiras não responderam aos pedidos de comentário.

As 37.486 toneladas métricas de carne foram importadas em setembro no âmbito da cota “Carne Bovina Acessível” da agência alfandegária. Mas, segundo economistas, é improvável que toda essa carne —ou mesmo a maior parte dela— tenha sido importada pelo decreto do presidente. Uma parte dessas importações teria entrado no país de qualquer maneira.

Os EUA importaram 1,9 milhão de toneladas métricas de todos os tipos de carne bovina no ano passado, principalmente da Austrália, do Canadá, do Brasil, do México e da Nova Zelândia. A maior parte consistia em aparas magras destinadas a misturas com aparas de alto teor de gordura vindas do gado americano para produzir carne moída.

Um volume adicional de 300 mil toneladas métricas seria significativo, mas representa apenas uma fração do que já entra no país.

James Mitchell, economista especializado em pecuária da Universidade do Arkansas, usou dois métodos diferentes para calcular o volume de aparas que teria entrado nos EUA em setembro em circunstâncias normais, caso não houvesse o decreto. Um dos métodos concluiu que 41% das 37.486 toneladas métricas teriam sido importadas, enquanto o outro apontou 79%.

“Nenhuma das abordagens é perfeita, mas acredito que ambas sejam mais razoáveis do que presumir que todas as 37.486 toneladas métricas foram importações adicionais”, escreveu Mitchell em um email.

Dificuldades na rastreabilidade e no varejo

Desde o início, não estava claro se o plano do presidente reduziria de forma significativa os preços da carne bovina. As aparas representam apenas uma parcela do custo da carne moída; grande parte do que o consumidor paga corresponde a custos como aparas mais gordurosas, mão de obra, processamento, transporte e marketing.

Trump disse ter um “compromisso” de que essa carne seria vendida a “25% abaixo dos preços de mercado”, embora não esteja claro se ele se referia aos preços no varejo ou no atacado.

Ted Schroeder, economista especializado em pecuária da Universidade Estadual do Kansas, afirmou que não haveria como os supermercados oferecerem descontos específicos aos clientes que comprassem carne moída produzida com essas aparas importadas. Elas não recebem uma identificação especial —na verdade, não recebem identificação alguma.

Frigoríficos e processadores comuns recebem carne de várias fontes, tanto importadas quanto nacionais, e não identificam todas elas para os clientes.

“É tudo misturado, então não consigo imaginar nenhuma maneira de um produto ser identificado apenas dessa forma”, disse Schroeder. “Assim que se começa a misturar, perde-se completamente a rastreabilidade da origem.”

Os preços no atacado das aparas magras nacionais ou importadas, que variam segundo a região, praticamente não mudaram, disse Schroeder. E a pequena queda nos preços da carne moída no varejo em setembro é comum, pois a temporada de churrascos chegou ao fim.

“É um centavo? Três centavos? Quatro? Dois e um terço?”, questionou Schroeder, referindo-se ao quanto as importações adicionais baratearam a carne moída. “A realidade é que isso não será perceptível.”

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