Historicamente, pesquisadores dos movimentos juvenis observam um pêndulo constante. Em alguns momentos, os jovens são tratados como o grande problema social, distantes das normas tradicionais; em outros, são vistos como a principal esperança para o futuro.
No cenário eleitoral recente dentro do campo progressista, essa dinâmica não foi diferente. Antes do primeiro turno, o clima era de apreensão constante. Diante de dados que sugeriam uma guinada da juventude para a direita, muitos militantes se perguntavam: será que perdemos a juventude?
Com essa dúvida no radar e apostando nas pesquisas, a esquerda foi às urnas. A apuração inicial trouxe desânimo com o avanço histórico da extrema direita no Congresso e nas assembleias estaduais. Contudo, garantida a disputa no segundo turno presidencial, o panorama mudou rapidamente.
Enquanto Lula (PT) — cuja imagem circulou em perfis de Lucas Pavanato (PL-SP) e Flávio Bolsonaro (PL) associada à figura de um criminoso ao som do hit sertanejo “3 Batidas” — enfrentava ataques virtuais, a leitura política se transformou sob a máxima de que quem domina as redes domina as narrativas.
Convidada para encontrar o presidente imediatamente após as eleições, a deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) fez um post no dia 5 de outubro, agradecendo os votos e contando que parte de sua campanha foi gasta respondendo à própria esquerda, que colocava em xeque sua capacidade e tratava a rede social com demérito. Afirmou ainda que a esquerda precisava de novas representatividades e devia compreender que a base também está “no Instagram e no TikTok”.
O recado ecoou em outras vozes. Guilherme Cortez (PSOL-SP), conhecido produtor de conteúdos digitais, declarou estar na política para disputar a geração Z. Ele e Ana Elisa atuaram juntos ao longo do primeiro e segundo turnos, visitando universidades brasileiras e gerando materiais de grande alcance, definindo-se como o “pesadelo de Nikolas Ferreira (PL-MG) na Câmara”.
Novas lideranças também ganharam destaque. Nomes como Ana Júlia Ribeiro (PT-PR), Luna Zarattini (PT-SP), Duda Hidalgo (PT-SP), Rosa Amorim (PT-PE), Camila Jara (PT-MS) e Pedro Rousseff (PT-MG) conquistaram mandatos expressivos. Vários deles apostaram forte nas plataformas digitais, utilizando cortes dinâmicos e confrontos diretos, adotando com eficácia as táticas de polarização antes dominadas por opositores.
Embora não tenham agido sozinhos, a atuação desses jovens foi decisiva para redirecionar a campanha petista. Com abordagens inovadoras, Lula alcançou pela primeira vez a liderança no índice de popularidade digital da Quaest. Além disso, sua própria imagem em formato selfie passou a ter mais espaço na propaganda do que a dos concorrentes.
O contato com essas novas gerações permitiu ao presidente compreender melhor a Geração Z. Jovens focados em aspirações futuras rejeitam cobranças tradicionais por gratidão política. Reconhecendo que o direito de sonhar foi construído no passado, a articulação passou a focar no amanhã. Foi nesse contexto que Lula caminhou ao lado da juventude nas ruas, lançou iniciativas como o Pé-de-Meia Universitário e o Prospera MEI, e apoiou a aprovação do fim da escala 6×1.
Dessa forma, a juventude deixou de ser vista como obstáculo e transformou-se em plataforma. A união entre ruas e redes gerou um movimento intergeracional, “canalizando” — segundo definiu o deputado Janones (Rede-MG) — energias antes isoladas. Independentemente do veredito final das urnas, a mensagem central foi clara: o PT não precisa da juventude apenas nas campanhas, precisa que ela se sente à mesa e participe das decisões estratégicas sobre os rumos do partido nos próximos anos.
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