[CONTEÚDO] A disputa sobre a localização de centros de dados está migrando para o fundo do mar: o governo dos Estados Unidos analisa propostas para construir duas gigantescas estruturas subaquáticas na costa do país. As áreas selecionadas para as iniciativas — uma em Cook Inlet, no Alasca, e outra no Golfo do Maine — ficam bem no centro dos habitats de duas populações de baleias ameaçadas de extinção. As baleias são “animais assustadiços”, afirma Arial Brewer, pesquisadora de belugas na Universidade da Washington e na Administração Nacional Oceânica e Atmosférica. “Um projeto em grande escala como esse pode realmente estressá-las de várias maneiras diferentes.” Os centros de dados, equipados com milhares de servidores, geram um calor considerável que pode danificar os equipamentos se não for neutralizado de alguma forma. As instalações terrestres consomem volumes massivos de água doce para a refrigeração. Ao posicionar um data center debaixo d’água, o oceano consegue dissipar esse calor facilmente. “O resfriamento representa uma fatia grande do custo de operação de um data center, e a água do mar é um dissipador gratuito”, diz Vishal Misra, cientista da computação e professor da Universidade Columbia. A Microsoft demonstrou que a ideia pode funcionar com um projeto-piloto na costa da Califórnia em 2015 e outro na Escócia alguns anos depois. Atualmente, existem apenas dois centros de dados subaquáticos em operação no mundo, um na ilha chinesa de Hainan e outro na costa de Xangai, e eles representam uma fração do tamanho das estruturas propostas para os dois locais nos EUA. No projeto do Maine, um conjunto do que documentos oficiais chamam de “colmeias de computação submarina” ou “cápsulas de centros de dados” repousaria no leito marinho, alimentado por até 50 turbinas maremotrizes em uma área de 27 acres. Em Cook Inlet, o centro de dados seria composto por 66 cápsulas e mais de 300 turbinas maremotrizes. Sua área abrangeria 1.650 acres — o equivalente a mais de 1.000 campos de futebol. Os locais foram escolhidos pela DeepGreen Holdings LLC — uma incorporadora com sede nos EUA — devido ao potencial para energia maremotriz, que funciona aproveitando o movimento da água. Porém, cada um desses pontos também abriga grupos fragilizados de baleias. Uma população distinta de cerca de 300 belugas criticamente ameaçadas vive em Cook Inlet. E o Golfo do Maine acolhe áreas de alimentação para a baleia-franca-do-atlântico-norte, uma espécie cujos números caíram abaixo de 400 indivíduos. Os impactos acústicos e térmicos da tecnologia O principal motivo de preocupação com os data centers subaquáticos é o mesmo dos terrestres: eles são excessivamente barulhentos. “Bombas, ventiladores e especialmente as fileiras de turbinas emitem som contínuo de baixa frequência, e a bate-estaca durante a construção é ainda mais barulhenta”, destaca Misra. O ruído do transporte marítimo dobrou a cada década desde a década de 1960, e há evidências sugerindo que, quando o volume diminui, os mamíferos marinhos ficam menos estressados. Um estudo descobriu que, quando o barulho de navios diminuiu logo após o 11 de setembro, as baleias-francas no Golfo do Maine apresentaram níveis mais baixos de hormônios do estresse. No caso das belugas em Cook Inlet, elas são particularmente sensíveis ao barulho, aponta Brewer. Devido ao escoamento glacial, a baía é muito túrbida. “Parece literalmente leite com chocolate”, relata ela, de modo que as belugas locais dependem quase inteiramente da ecolocalização para se alimentar, acasalar e se deslocar. O próprio propósito de colocar os centros de dados debaixo d’água — a eliminação de calor — também ameaça os cetáceos. Quando um padrão de aquecimento das águas atingiu o Golfo do Maine no início da década de 2010, as baleias-francas começaram a abandonar suas áreas de alimentação. “O aquecimento oceânico é algo muito, muito sério para elas”, avalia Philip Hamilton, cientista sênior do Aquário da Nova Inglaterra. No Alasca, o salmão é uma das principais fontes de presa para as belugas — e os peixes precisam de água fria para desenvolver seus ovos, manter o metabolismo estável e evitar o esgotamento de energia durante longas jornadas migratórias. “Toda essa energia quente, o que vai fazer com populações de salmões muito delicadas que dependem de água fria?”, questiona Brewer. Reação comunitária e próximos passos A reação contrária das comunidades tem sido intensa: a cidade de Eastport, no Maine, emitiu uma moratória paralisando todas as licenças e solicitações para centros de dados industriais. A tribo local Passamaquoddy também manifestou publicamente não ter interesse em qualquer tipo de colaboração com a DeepGreen. Vários grupos protocolaram petições para intervir na proposta voltada a Cook Inlet. A Comissão Federal de Regulamentação de Energia (FERC), que supervisiona projetos energéticos desse tipo, aponta que tais propostas são apenas isso: propostas. “Uma licença preliminar não autoriza construção de nenhum tipo”, afirma Celeste Miller, representante da FERC. De fato, a FERC julgou as propostas originais para ambos os projetos “deficientes”, citando falta de detalhes e identificação insuficiente de tribos indígenas com laços históricos com as regiões locais. No entanto, a agência aceitou versões revisadas; a iniciativa do Maine, que originalmente previa 170 turbinas em 400 acres de leito marinho, agora possui uma área proposta menor. O período de consulta pública para o Maine encerrou-se em 19 de outubro, mas o referente a Cook Inlet permanece aberto até 2 de novembro. Após essa data, a FERC examinará as candidaturas e os comentários para emitir decisões preliminares de licenciamento. “Não temos intenção de construir nesta fase”, garante Louis Wolfson, o incorporador imobiliário de luxo por trás da DeepGreen. “Se o equipamento não puder operar com segurança bem dentro dos limites federais para mamíferos marinhos, ele nunca será licenciado ou implantado.” Contudo, nos últimos dois anos, o governo federal tem buscado flexibilizar esses mesmos limites. Por exemplo, o Senado avalia um projeto de lei que adiaria novas proteções para as baleias-francas contra emaranhados em redes de pesca. E, embora as belugas e as baleias-francas tenham sido historicamente protegidas pela Lei de Proteção aos Mamíferos Marinhos, emendas propostas ao texto reduzem drasticamente essas salvaguardas. “Parece que a cada dia eles estão podando mais uma proteção”, lamenta Hamilton. [/CONTEÚDO]
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