Ribera del Duero mostra no Brasil a força de seus grandes vinhos

Vinhos da Ribera del Duero conquistam espaço no mercado brasileiro

Gastronomia

Na Ribera del Duero, a vida das videiras não é exatamente fácil. Os verões são quentes, os invernos fazem tremer e, em um único dia, os termômetros podem registrar diferenças superiores a 20 graus. Some a isso vinhedos que chegam aos mil metros de altitude, solos de diferentes composições e algumas plantas centenárias que insistem em produzir pouquíssimas uvas. Parece uma receita para complicações, mas é justamente dessa combinação que nascem alguns dos tintos mais cobiçados da Ribera del Duero. E foi um pouco desse universo que ganhou destaque em São Paulo, no dia 27 de outubro, durante um encontro promovido pelo Consejo Regulador da D.O. Ribera del Duero.

A apresentação reuniu produtores e profissionais do vinho em uma masterclass conduzida pelo sommelier Vinicius Santiago, único brasileiro certificado como embaixador da denominação, seguida de uma degustação com rótulos de 13 vinícolas, entre elas Emilio Moro, Matarromera, Dominio de Atauta, Félix Callejo, Condado de Haza, Protos, Viña Sastre e Sei Solo. O encontro reforçou a aproximação da região com o mercado brasileiro, onde seus vinhos registraram crescimento de 23,1% em valor em 2025, segundo o Consejo Regulador.

Terroir e protagonismo da Tempranillo

Mas o que torna a Ribera del Duero tão especial? Para começar, a região acompanha o rio Duero, que atravessa Castilla y León antes de seguir para Portugal, onde muda de nome para Douro. A grande protagonista é a Tempranillo, chamada por ali de Tinto Fino ou Tinta del País. A mesma variedade que faz bonito em Rioja encontra, nessas terras mais altas e de clima extremo, condições para produzir vinhos de personalidade bastante diferente. A amplitude térmica favorece a preservação da acidez, enquanto a insolação contribui para a maturação das uvas. Na taça, aparecem frutas negras, especiarias, taninos marcantes e, nos melhores exemplares, uma elegância que desafia a fama de que todo vinho da região precisa ser musculoso.

Tradição e ícones mundiais

A história também ajuda a explicar o prestígio. Embora a denominação tenha sido reconhecida oficialmente apenas em 1982, a produção de vinho remonta à época romana. A Vega Sicilia, fundada em 1864, já elaborava seu lendário Único muito antes de existir qualquer conselho regulador. Décadas depois, Alejandro Fernández ajudou a revolucionar a imagem da região com o Tinto Pesquera. E, nos anos 1990, o dinamarquês Peter Sisseck colocou ainda mais lenha nessa fogueira ao criar o Pingus, que rapidamente entrou para o seleto clube dos vinhos de culto, com preços capazes de provocar calafrios até em colecionadores experientes.

Há outras preciosidades menos conhecidas. Em Atauta, na província de Soria, sobrevivem vinhas muito antigas, algumas anteriores à filoxera, praga que devastou boa parte dos vinhedos europeus no século XIX. São plantas de produção diminuta, muitas vezes cultivadas em pequenas parcelas, que ajudam a preservar um patrimônio genético e vitícola extraordinário. Outra surpresa é que nem tudo por ali é tinto. Desde 2019, a denominação também reconhece oficialmente vinhos brancos, elaborados principalmente com Albillo Mayor, uva local que oferece aromas delicados, textura e frescor. Os rosés também fazem parte do repertório, embora a Tempranillo continue reinando absoluta.

Mercado e estratégia no Brasil

Atualmente, a Ribera del Duero reúne cerca de 27.470 hectares de vinhedos, 317 vinícolas e quase 5 mil viticultores. Segundo dados da Nielsen divulgados pelo Consejo Regulador, é a denominação espanhola com maior valor médio por garrafa e a segunda em valor de mercado, com participação de 17,8%. Números que ajudam a entender por que o Brasil ganhou importância na estratégia dos produtores. Para Pablo Baquera Peironcely, diretor de Marketing da entidade, a iniciativa procurou ampliar o conhecimento sobre a região e estreitar o relacionamento com os profissionais brasileiros.

Mais interessante do que os números, porém, é perceber como uma mesma uva pode assumir tantas personalidades ao longo de um território relativamente pequeno. Há tintos jovens, cheios de fruta e disposição para a mesa, outros que pedem alguns anos de adega e aqueles que parecem não ter pressa alguma de envelhecer. A Ribera del Duero pode até ser conhecida pelos grandes nomes e pelas garrafas caras, mas sua graça está justamente em descobrir o que existe além deles. Afinal, nem só de Vega Sicilia e Pingus vive o Duero.

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