O problema dos mortos de Jesmyn Ward não é estarem mortos — é não terem terminado de dizer o que sabem. E eles sabem muita coisa. Sabem, sobretudo, que morrer e desaparecer não são exatamente a mesma coisa. Em O canto dos insepultos, Ward põe os mortos para conversar com os vivos. Nas mãos erradas, isso poderia render um belo desastre. Nas dela, rende um romance sobre memória, família e racismo no Mississippi — e, principalmente, sobre aquilo que uma geração deixa para a seguinte.
Talvez por isso a conexão com Jojo seja imediata. Aos treze anos, o garoto quer desesperadamente ser digno de Pop, seu avô. Não apenas parecido com ele — digno dele. Há uma diferença imensa entre as duas coisas. Logo no início do romance, Jojo acompanha Pop no abate de um bode. Quer demonstrar que aguenta o sangue, a faca, a morte. Aguenta quase tudo, depois vomita. E a delicadeza está na reação: Pop percebe a fragilidade e o sentimento de humilhação do neto. Diz a Jojo que escutou um choro e o manda cuidar da irmã pequena. Não há sermão sobre virar homem; o avô não precisa diminuiro menino para ensiná-lo a crescer.
Conflitos de masculinidade e ancestralidade
A cena importa porque Jojo está cercado por diferentes possibilidades de masculinidade. Há Michael, seu pai, branco, ausente porque está preso. Há Big Joseph, o avô branco que mal reconhece os netos negros; há Given, o tio assassinado; há Richie, que conheceu cedo demais a violência; e há Pop. Jojo escolhe o homem que construiu a própria casa, cozinha, cuida da mulher doente, conta histórias, ensina, protege e sabe ser forte sem transformar força em brutalidade. O menino quer crescer porque ama aquele homem, quer chegar à altura dele. Talvez uma das formas mais bonitas de ancestralidade seja esta: encontrar alguém antes de nós cuja existência faça nascer a vontade de merecer a herança recebida.
Ward não escreve apenas sobre aquilo que herdamos de bonito. Poucas coisas neste romance causaram tanta indignação quanto descobrir por que Given morreu. O tio de Jojo era um jovem negro excelente com arco e flecha. Pop já o havia advertido sobre os colegas brancos: não importava que Given os enxergasse como iguais; importava como eles o enxergavam. Ainda assim, o filho foi caçar com eles e apostou que conseguiria matar um cervo com flecha antes que um dos rapazes o fizesse com um rifle. Given ganhou, e o prêmio dele foi a morte.
A literatura não ressuscita ninguém, mas pode impedir que, pelo silêncio, alguém seja morto uma segunda vez
A tragédia poderia ser detalhada, mas há indignações que o leitor merece experimentar sem intermediários. Basta dizer que Given cometeu uma infração mais antiga do que qualquer código penal: foi um homem negro melhor do que um homem branco diante do próprio homem branco. Sua morte, porém, não encerra a violência.
Subjetividade e os impactos do racismo
Ward está interessada também no que acontece quando um homem negro já não está vivo para disputar a narrativa sobre aquilo que fizeram com ele. Talvez por isso Given continue aparecendo para Leonie, uma personagem que desperta intensa raiva. Ela é mãe de Jojo e Kayla, mas frequentemente é Jojo quem exerce a maternidade da irmã. Leonie usa drogas, negligencia os filhos, ressente-se do vínculo entre eles e vive uma relação visceral com Michael. A autora não parece minimamente interessada em torná-la uma mulher negra exemplar para facilitar nossa simpatia — ainda bem.
A leitura profunda evoca reflexões complexas sobre afeto e opressão. Michael não matou Given — isso precisa ser dito. A culpa não é hereditária, e transformar qualquer homem branco em extensão automática de outro seria uma leitura preguiçosa. Mas Ward construiu uma ironia cruel demais para ser ignorada: Leonie ama um homem branco do sangue de quem matou seu irmão e vê o fantasma do irmão negro morto. O morto e o amante habitam a mesma mulher.
O racismo não organiza apenas leis, prisões e relações econômicas. Ele invade a subjetividade, embaralha reconhecimento, afeto e desejo. Leonie não ama Michael simplesmente porque ele é branco — o romance seria muito menos interessante se fosse tão fácil. O amor dela tampouco acontece fora da raça. Nenhum deles tem esse privilégio, nem mesmo os filhos. Jojo e Kayla são a materialização desse amor e herdam também suas contradições. É Pop, contudo, quem oferece a narrativa capaz de ajudar Jojo a compreender o mundo em que nasceu.
A herança da fazenda-prisão Parchman
Pop era adolescente quando foi preso e levado a Parchman, onde conheceu Richie, condenado por roubar comida. Parchman era uma fazenda-prisão: homens trabalhavam nos campos de algodão, vigiados por presos armados e cachorros. Ward não precisa colocar uma nota de rodapé dizendo que a escravidão deixou descendentes. Ela confia ao leitor a identificação dos parentes. Richie, porém, transforma a história contada por Pop em outra coisa, até porque os mortos não aparecem para assombrar — eles querem saber, lembrar, necessitam ser lembrados.
É aqui que O canto dos insepultos se torna muito mais do que um romance de fantasmas. Trata-se de uma história sobre quem tem o direito de contar uma vida depois que ela termina. Pop conta, Jojo escuta, Given aparece, Richie procura respostas e Leonie tenta esquecer, sem conseguir. O título original, Sing, Unburied, Sing (Cante, insepulto, cante), contém um imperativo: cante. A tradução de Camila Von Holdefer transforma o verbo em substantivo: canto. Essa pequena mudança faz com que, em português, pareça que chegamos quando eles já começaram a cantar.
A literatura não ressuscita ninguém, ainda bem, não é mesmo? Também não devolve a Given a vida nem a Richie a infância. Mas pode cometer uma pequena indisciplina contra o esquecimento: impedir que, pelo silêncio, alguém seja morto uma segunda vez. Há mortos que precisam de uma cova; os de Jesmyn Ward precisam de uma testemunha. E talvez seja por isso que cantem.
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