Como deve ser a primeira consulta de crianças e adolescentes no ginecologista

Como deve ser a primeira ida de meninas ao ginecologista

Saúde

Frases como “É só uma dorzinha, vocês mulheres são muito dramáticas.”, “Quando engravidar, passa.” e “Um chute nas bolas dói mais.” são relatos frequentes de meninas e adolescentes na escola, em casa e até em consultas médicas. Esses depoimentos constam no Almanaque de Saúde Menstrual – Livres Para Menstruar, lançado em uma quinta-feira pela Girl Up Brasil, movimento que reúne grupos de jovens pelo país. O material baseia-se em conversas com 200 meninas para propor a quebra do silêncio e dos tabus sobre a menstruação e a dor pélvica.

Diversos estudos mostram que a falta de conhecimento sobre o próprio ciclo e a normalização do sofrimento fazem com que garotas esperem anos até receberem diagnósticos de doenças como a endometriose. Uma pesquisa do Instituto Alana com o Equidade.info indicou que 4 em cada 10 meninas faltam à aula ao menos uma vez por mês devido aos sintomas. Outro levantamento, da Vital Strategies Brasil com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), revelou que apenas 0,5% dos registros de dor menstrual no SUS do Recife foram associados a um código oficial de doença.

Em maio, ativistas participaram de uma oficina em Brasília promovida pelo Alana com ginecologistas, onde compartilharam suas vivências e expectativas de atendimento. “O que ficou claro é que elas têm, junto à trajetória da dor, uma trajetória de falta de escuta”, pontua Sofia Reinach, líder da iniciativa de endometriose, dor pélvica e saúde menstrual do instituto. A conversa resultará em um guia para médicos com lançamento previsto para o início do próximo ano, visando diagnósticos precoces. No Dia do Ginecologista, celebrado em uma sexta-feira, médicas que participaram do encontro detalham o atendimento ideal.

Escuta sem pressa e acolhimento

O primeiro passo consiste em permitir que a adolescente entre sozinha no consultório, caso deseje, e fale sem ser interrompida, aponta a ginecologista Brunely Galvão. O profissional só deve direcionar o diálogo caso ela apresente dificuldades para organizar as queixas. A ginecologista e sexóloga Joyce Martins enfatiza a importância de uma escuta qualificada e receptiva. Com uma menina de 10 anos, por exemplo, é fundamental descobrir onde ela estuda, quem é sua melhor amiga e se gosta do grupo sul-coreano BTS para que ela se sinta à vontade para se abrir.

Essa abordagem ganha ainda mais relevância ao considerar recortes de raça e classe social. Meninas indígenas e quilombolas, por exemplo, podem vivenciar a menstruação de maneiras distintas, exigindo adaptação dos especialistas.

Respeito e autonomia

As participantes da oficina deixaram evidente que possuem opiniões formadas sobre o próprio cuidado. Isso demanda evitar a tutela da adolescente ou esperar que os responsáveis respondam por ela, além de abolir a infantilização do discurso. O almanaque reforça que, a partir dos 12 anos, a jovem tem o direito no SUS de ser atendida sozinha ou acompanhada por alguém de confiança que não seja necessariamente pai ou mãe, mantendo o sigilo médico, exceto em casos de risco grave à vida. Brunely sugere o uso de um modelo pélvico para explicar a anatomia e a apresentação de produtos de higiene, como calcinhas absorventes, coletores, discos e absorventes internos.

Informação e combate aos tabus

A primeira consulta pode ocorrer antes ou depois da menarca, que tem acontecido cada vez mais cedo. Para Joyce, o momento serve para ensinar sobre o funcionamento do corpo e o acompanhamento da saúde menstrual, indo além de um simples check-up. Ela relata explicar o uso de absorventes, a origem do sangue e utilizar espelhos para apresentar a vulva e orientar sobre a higiene.

A linguagem deve ser acessível, pois o tema só parece complexo devido aos tabus. Joyce ressalta que a menstruação não deve ser tratada como o fim da infância, e expressões como “virou mocinha” podem restringir as atividades da menina. Cabe ao médico incentivar a prática de esportes e o uso de calcinhas menstruais para garantir segurança. A abordagem também deve abranger o consentimento, conectando a saúde menstrual à sexual e reduzindo ansiedade e vergonha.

Nenhuma dor é normal

Um dos maiores problemas apontados pelas jovens é a negligência médica em relação à dor. A cólica é frequentemente tratada como algo natural, dificultando a identificação de quadros como a endometriose. “Quem define se a dor é incapacitante é quem a sente”, argumenta Brunely. Já o sangramento possui parâmetros mais objetivos, como a quantidade de produtos higiênicos trocados diariamente.

São motivos para buscar o médico: dores que impedem de brincar ou estudar, fluxos intensos e sangramentos prolongados acompanhados de fraqueza, sono excessivo ou alterações intestinais. O almanaque defende que o ciclo menstrual seja tratado como sinal vital, com averiguações rotineiras, e critica a prescrição de anticoncepcionais apenas para mascarar sintomas sem investigação prévia.

Quem tem a responsabilidade

O documento orienta as adolescentes a levarem anotações baseadas no roteiro Menses, sigla que abrange idade da primeira menstruação, frequência dos ciclos, duração do fluxo, quantidade de absorventes trocados, impacto na rotina e data da última menstruação. No entanto, o foco da responsabilidade recae sobre quem escuta, incluindo o combate ao racismo estrutural na saúde. O cuidado precisa partir conjuntamente do sistema, da família, da escola e dos profissionais. “São as meninas que precisam ser cuidadas e assistidas. A gente precisa cuidar dessa geração”, conclui Joyce Martins.

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *