Menor nível em 14 anos, desemprego a 5,2% sustenta consumo, mas pressiona Selic

Desemprego cai para 5,2% no trimestre encerrado em setembro

Economia

A taxa de desocupação no Brasil recuou para 5,2% no trimestre encerrado em setembro, atingindo o menor patamar para o período desde o início da série histórica, em 2012. Os dados foram divulgados pelo IBGE por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua. No trimestre anterior, o índice havia ficado em 5,4%, enquanto no mesmo período do ano passado registrou 5,6%.

Embora o cenário gere reflexos favoráveis imediatos na economia, o levantamento de avaliações de bancos e corretoras revela cautela. Um mercado de trabalho tão restrito amplia os riscos inflacionários no setor de serviços e limita as margens de manobra do Banco Central para acelerar a redução da taxa Selic nos próximos encontros.

Consumo resiliente e expansão da ocupação

O crescimento no número de pessoas ocupadas e a alta na massa salarial continuam funcionando como os principais combustíveis da atividade econômica. De acordo com o economista Leandro Padulla, do ASA, o rendimento efetivo real avançou 1,7% no trimestre e a massa de rendimentos subiu 2%. “Os números interrompem a percepção de perda mais persistente de dinamismo da renda e indicam que o mercado de trabalho ainda tende a oferecer sustentação ao consumo das famílias”, afirma Padulla.

Os ganhos médios da população marcaram o quarto avanço consecutivo acima da inflação, conforme dados da consultoria 4Intelligence. A instituição prevê a continuidade de patamares elevados para a massa de rendimentos, impulsionada tanto pela política de valorização do salário mínimo quanto pelas negociações coletivas de sindicatos.

Impactos sobre a inflação e os juros

Se por um lado o pleno emprego garante o faturamento do varejo, por outro cria um obstáculo severo ao controle de preços. Analistas apontam que a escassez de mão de obra eleva os salários, encarece as operações das empresas prestadoras de serviços e repassa esse custo ao consumidor final.

Esse cenário reduz o espaço para a política de corte de juros, conforme avalia André Matos, CEO da MA7 Capital. “O problema é que um mercado de trabalho apertado mantém a pressão sobre salários e sobre a inflação de serviços, que é a parte mais difícil de baixar”, explica o executivo.

Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, observa que o país iniciará o próximo ano com uma base sólida, porém cada vez mais dependente de tecnologia e produtividade. “Com menos trabalhadores disponíveis, a expansão da atividade pode elevar salários e pressionar os preços dos serviços caso a produção não acompanhe a demanda”, ressalta.

Expectativa de desaceleração gradual

Mesmo diante da sequência de recordes nos indicadores de ocupação, economistas já identificam sinais de perda de ritmo na criação de postos de trabalho, avaliando que o espaço para novas vagas está se esgotando diante da desaceleração geral da economia.

A consultoria 4Intelligence aponta que a taxa de participação na força de trabalho estacionou em 62,2% e não deve retornar aos patamares anteriores à pandemia. A análise indica que “a tendência de cada vez mais pessoas fora da força de trabalho está relacionada à questão demográfica, já que a população brasileira envelhecerá e tende a ter menor participação nas próximas décadas”.

Alguns setores já demonstram retração na abertura de postos no comparativo anual, a exemplo de serviços domésticos e da indústria de transformação, aponta Rodolfo Margato, economista da XP. “Projetamos que a taxa de desemprego atingirá 5,4% ao final de 2026 e 6,5% ao final de 2027”, afirma, projetando o arrefecimento da atividade econômica.

André Valério, economista sênior do Inter, corrobora a visão ao observar a estagnação da taxa de informalidade em 37,5% e a estabilidade da renda habitual. “Nossa leitura é que vemos um mercado de trabalho muito próximo do pico e com pouco espaço para continuar melhorando”, pontua Valério.

A 4Intelligence aponta ainda divergências entre os postos formais, que cresceram 1,8% no comparativo anual, e as vagas informais, que subiram apenas 0,2%. O diagnóstico ganha reforço da XP, cuja leitura indicou queda de 0,1% no emprego informal na variação mensal, em contraste com a expansão entre os trabalhadores com carteira assinada.

Por fim, António Ricciardi, do Banco Daycoval, pontua que a desocupação dessazonalizada permanece em torno de 5,4% desde o começo do ano. O indicador corrobora a expectativa de que o ritmo do mercado de trabalho deve ceder de forma gradual, à medida que os juros elevados passem a impactar de maneira mais intensa o fluxo de caixa das corporações.

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