Fundos de investimento perdem R$ 157,5 bilhões após reeleição de Lula

Fundos de investimento perdem R$ 157,5 bilhões após reeleição de Lula

Mercados

A indústria de fundos de investimentos brasileira perdeu R$ 157,5 bilhões em patrimônio por queda de rentabilidade, ou 1,44%, do dia seguinte à vitória nas urnas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) até quarta-feira, com fundos de ações acumulando perdas de dois dígitos (28), segundo levantamento da Economática.

O tombo ocorreu em um mercado que estava majoritariamente posicionado para a valorização dos ativos brasileiros na segunda-feira (26), apostando na vitória de Flávio Bolsonaro (PL), como havia ocorrido após o primeiro turno.

Impacto nos multimercados e ações O impacto foi especialmente forte em algumas carteiras de ações e multimercados. Levantamento da Comdinheiro com os fundos multimercado e de ações com mais de 1.000 cotistas aponta que sete deles tiveram desvalorizações superiores a 40% na segunda (26). Na média, considerando os 682 fundos do levantamento, a queda foi bem menor, de 6,90%. Do total, 202 tiveram ganhos ou estabilidade no preço das cotas.

As perdas atingem a indústria em um momento de fragilidade. Com a taxa básica de juros a 13,75%, gestores de fundos de ações e multimercados têm encontrado dificuldade em competir. Em setembro, os fundos de investimento registraram uma saída líquida de R$ 29,8 bilhões, mas no ano a captação está positiva em R$ 251,7 bilhões.

O fundo de ações da gestora Mantaro, que tem patrimônio líquido de R$ 373,2 milhões, segundo a plataforma Mais Retorno, caiu 32,24% em 26 de outubro, após subir 17,93% no pregão seguinte ao primeiro turno. A casa mantinha havia mais de um ano exposição relevante a empresas do setor financeiro, como BTG Pactual e B3, por apostar na valorização desses papéis em caso de mudança de governo. Paulo Abreu, gestor da Mantaro, diz que a firma não tinha alavancagem e reduziu algumas posições após a eleição.

“Em 2014, entre o primeiro e o segundo turnos, fizemos hedge (proteção) porque ali achávamos que a proteção de fato estava barata. Dessa vez, não achamos barato, o que não se mostrou verdade, mas ninguém imaginava um movimento de preço como esse”, afirma Abreu —na segunda, o Ibovespa recuou cerca de 14%.

Em meio a boatos sobre o fechamento da Mantaro após as perdas, a gestora colocou um banner em seu site negando a informação.

As perdas, diz ele, ilustram um posicionamento mais generalizado dos fundos. Antes da votação do segundo turno, havia 2,5 opções de compra (calls) para cada opção de venda (puts) negociada sobre o EWZ, o ETF (exchange traded fund) de ações brasileiras listado nos Estados Unidos. As calls dão o direito de comprar um ativo por um preço combinado e costumam ser usadas em apostas de valorização, enquanto as puts garantem o direito de venda por um valor previamente estabelecido e podem funcionar como proteção contra perdas.

Em comparação, nas eleições de 2022, o volume de opções sobre o EWZ foi dividido quase igualmente entre as duas modalidades, segundo Abreu.

Ou seja, a proporção mostra que nas eleições de 2026 havia mais investidores apostando na alta das ações do que buscando proteção (hedge) contra uma eventual queda, o que tornava a contratação de um seguro contra a queda do Ibovespa, na forma de put (opção de venda), mais cara.

Reestruturação e desempenho das grandes gestoras As perdas expressivas levaram gestoras a repensar as carteiras e reestruturar equipes. Em uma carta aos investidores, a Mar Capital, com patrimônio de R$ 550,8 milhões, disse que errou na estratégia do planejamento e, diante da queda no desempenho, estava adequando custos e estrutura, o que inclui uma redução parcial da equipe.

Em 12 meses, o fundo multimercado Mar Absoluto recua 33,3%. Na segunda, ele teve uma queda de 15,45%. Porém, em resposta à Folha, Bruno Coutinho, CEO da Mar, disse que não houve demissões.

A Verde Asset Management, de Luis Stuhlberger, também sangrou, perdendo cerca de R$ 2,6 bilhões em outubro, indo a um patrimônio de R$ 12,4 bilhões. Um de seus fundos de ações recuou 19,85% na segunda. O mais famoso, o fundo multimercado Verde, caiu apenas 4,66% naquela sessão.

A AZ Quest (R$ 33,14 bilhões de PL), de Walter Maciel, que atuou como uma espécie de cabo eleitoral de Flávio em vídeos nas redes sociais, teve um fundo de ações com 35,42% de queda na segunda.

Entrevistado pela Folha após o primeiro turno, no qual Flávio saiu em vantagem, Maciel descreveu a euforia do mercado financeiro daquele momento como apenas uma amostra.

“Você só viu o trailer. O filme nem começou. Se começa a ter um ajuste fiscal de verdade, os juros realmente começam a baixar e o real, a se valorizar. Investimentos crescendo. Você começa a ver o país sair dessa sinuca. Eu acho que vai ter uma explosão de crescimento do PIB”, disse Maciel à época.

Entre os poucos vencedores da indústria na segunda-feira, está um fundo do Itaú que investe em grandes empresas de tecnologia nos Estados Unidos. Impulsionado pela alta do dólar, ele se valorizou 10,70%.

Perspectivas futuras Segundo Abreu, da Mantaro, a recuperação da indústria dependerá, entre outros fatores, da trajetória dos juros longos e das expectativas para o risco fiscal. A definição da equipe econômica do governo Lula 4 e das metas para as contas públicas será importante para reduzir as incertezas para o mercado de ações.

Myrian Lund, professora da FGV e ex-gestora de fundos, afirma que os multimercados encontram um ambiente mais favorável quando os juros reais estão entre 2% e 3%. Segundo a especialista, acima de 5% ou 6%, fica mais difícil superar aplicações conservadoras sem assumir riscos maiores. Lund diz que a incerteza sobre os próximos passos do governo também deve manter os investidores cautelosos e favorecer a procura por renda fixa.

Ações de corretoras e gestoras No mundo dos investimentos, as perdas não ficaram restritas aos fundos de investimento em si.

Em relatório após o segundo turno, analistas do banco UBS BB previam correção significativa no preço de instituições financeiras com a reeleição de Lula, especialmente os que tendem a se beneficiar mais de juros mais baixos, como XP e BTG Pactual, que têm grandes operações no mercado de capitais e na gestão de fundos.

“O cenário de juros elevados por mais tempo deve impedir uma expansão significativa de seu principal negócio (plataforma de investimentos), e não descartaríamos uma expansão mais forte do negócio de crédito da XP (o que adicionaria risco de balanço patrimonial para a empresa)”, escreveram.

No pregão de 26 de outubro, as ações da XP caíram 48,36%, enquanto as do BTG Pactual recuaram 24,83%. As perdas foram bem superiores à queda de 13,88% do Ibovespa no mesmo dia.

Procurados pela Folha, XP e BTG disseram que não comentariam.

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *