Militares veem Escudo das Américas com apreensão e preveem resistência

Militares temem entrada do Brasil no Escudo das Américas

Mundo

A perspectiva de uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da corrida presidencial acendeu o sinal de alerta entre os altos escalões das Forças Armadas brasileiras. A principal preocupação da caserna reside na potencial integração do país ao Escudo das Américas, plano de cooperação bélica e repressão ao crime organizado encabeçado pelo mandatário norte-americano Donald Trump.

O que é a aliança liderada por Washington

Consolidada como o pilar da estratégia externa da Casa Branca voltada à América Latina, a coalizão reúne lideranças alinhadas à direita regional, a exemplo de Javier Milei na Argentina, Daniel Noboa no Equador, José Antonio Kast no Chile e Abelardo de la Espriella na Colômbia. A meta declarada da Casa Branca envolve estrangular o fluxo internacional de entorpecentes em direção ao mercado consumidor dos EUA.

Para além dos exercícios conjuntos convencionais, as Forças Armadas norte-americanas intensificaram sua presença operacional nos parceiros do bloco, promovendo inclusive bombardeios diretos contra instalações de cartéis de drogas em nações como a Colômbia e o Equador. Sob o comando de gestões de esquerda, o Brasil de Lula e o México de Claudia Sheinbaum optaram por permanecer fora do mecanismo, sob o entendimento de que tais métodos afrontam a soberania nacional e que as estruturas vigentes já bastam para reprimir o narcotráfico.

Para Dan Erikson, ex-integrante do Departamento de Defesa dos EUA e ex-assessor da Casa Branca nos governos Obama e Biden, a adesão brasileira teria importância estratégica. “Ter o Brasil fora dessa iniciativa representa uma grande lacuna estratégica que tenho certeza de que o governo Trump gostaria de mudar”, diz.

Inquietude no Exército e restrições constitucionais

Nos bastidores da cúpula militar, o cenário é tratado com cautela e apreensão. Oficiais de alta patente ponderam que eventuais operações em solo nacional representariam um fato inédito na história recente. Durante a Segunda Guerra Mundial, período de maior integração operacional entre os países, as instalações no Nordeste funcionaram estritamente como plataformas de suprimento e logística para frentes no exterior, sem a deflagração de ações bélicas no território doméstico.

Adicionalmente, os generais demonstram indisposição para assumir funções rotineiras de segurança pública, desgaste que se intensificou desde a intervenção federal no Rio de Janeiro, em 2018. O artigo 142 da Constituição autoriza a atuação interna das Forças Armadas apenas em circunstâncias episódicas, demandando reforma legislativa para uma mobilização prolongada. Diante disso, analistas fardados consideram mais viável que uma aproximação sob eventual gestão bolsonarista se limite à vigilância da faixa de fronteira.

No centro de pesquisas conservador Heritage Foundation, o especialista Andrés Martinez-Fernandez sustenta que a adesão traria ganhos expressivos ao Planalto: “O Brasil receberia uma oferta bastante substancial de apoio dos EUA, seja por meio de mais treinamentos, acesso à inteligência americana, recursos, tecnologias e equipamentos”, afirma.

Fronteiras da soberania e resistências externas

Diante dos receios sobre subordinação aos Estados Unidos, a general da reserva Dusty Shultz, ex-chefe do setor de inteligência do Comando Sul americano, ressalta a importância de salvaguardas regulatórias: “O Brasil deve poder dizer: ‘Sim, vamos fazer isso, mas, ao aderir, não estamos abrindo mão da nossa soberania nacional para tomar decisões sobre o que acontece dentro do nosso país’”, diz.

A resistência política ao projeto repete-se entre vizinhos sul-americanos. No Chile de Kast, os ex-presidentes Gabriel Boric e Michelle Bachelet firmaram documento conjunto em repúdio à iniciativa. No Equador, Noboa encara desaprovação pública expressa por meio de plebiscito, onde 61% da população rejeitou a reabertura de bases estrangeiras.

Apesar de comandantes equatorianos admitirem avanços logísticos com o apoio de satélites americanos, persiste a desconfiança em relação às motivações geopolíticas de Washington, desenhadas também para afastar a influência de potências como China e Rússia e controlar rotas migratórias. Por fim, a efetividade das ações armadas segue em debate. “Ainda não há evidências de que isso esteja impedindo ou reduzindo o tráfico de drogas no longo prazo”, afirma Erikson, que conclui: “Seria um erro pensar que apenas o uso da força pode produzir um resultado positivo, porque se trata de um problema muito mais complexo e multifacetado.”

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