Investidores reduzem apostas em crescimento dos EUA em meio a temores de exposição excessiva a IA

Investidores reduzem expectativas para os EUA por temor com inteligência artificial

Mercados

O mercado financeiro começou a diminuir as projeções para a expansão econômica dos Estados Unidos, direcionando recursos para a compra de títulos públicos. O movimento ocorre em meio a uma onda de apreensão sobre a alta exposição das empresas ao setor de inteligência artificial.

A mudança de rumo acontece apesar da divulgação de que a economia americana cresceu 3,4% no terceiro trimestre, superando a projeção de 3,2% calculada por economistas consultados pela Bloomberg. No entanto, os balanços corporativos recentes deixaram investidores divididos quanto à durabilidade do rali tecnológico.

Enquanto alguns analistas atribuem a migração para os títulos a uma cautela temporária frente à volatilidade das ações, outros enxergam uma transformação estrutural. Indicadores de mercado que apontavam forte expectativa de crescimento — e que vinham de meses de desinvestimentos em títulos do Tesouro — inverteram a direção nas últimas duas semanas.

O rendimento do título público de dez anos descontada a inflação caiu para 2,58% nesta semana, atingindo o menor patamar desde o início de setembro. Comportamento semelhante foi registrado nos papéis de cinco e 30 anos, cujos rendimentos recuaram para mínimas não vistas desde setembro, anulando grande parte das perdas anteriores.

Essa queda nos rendimentos reflete a busca por proteção, com investidores apostando que os títulos terão desempenho superior ao das ações. Embora a fuga da Bolsa nesta semana seja menor do que a observada no verão do Hemisfério Norte, a entrada de capital em ativos de renda fixa sinaliza uma estratégia para mitigar riscos ligados à inteligência artificial.

“O mercado vinha apostando em um crescimento forte, sustentado pela IA e pela expectativa de algum alívio no Oriente Médio, e agora estamos reavaliando o cenário”, afirmou Bill Campbell, gestor de portfólio da DoubleLine.

Impacto nos balanços e nas Bolsas Resultados financeiros desfavoráveis divulgados por Meta, Alphabet, Amazon e Intel pressionaram o índice Nasdaq 100, que recuou 2% na semana e entrou em território de correção.

A Alphabet liderou as perdas com uma queda de 13% em um único dia, após revelar fluxo de caixa livre negativo pela segunda vez em um trimestre desde sua abertura de capital em 2004. As outras três gigantes reportaram disparadas nos investimentos em capital ao mesmo tempo em que o ritmo de crescimento da receita começou a desacelerar.

Priya Misra, gestora de portfólio da JPMorgan Asset Management, avaliou o cenário: “Não há indícios de desaceleração do crescimento em nenhum dos dados econômicos. Mas os mercados olham para o futuro. Uma reavaliação da IA implica uma reavaliação das expectativas de crescimento”.

Economistas alertam há tempos que a atividade econômica americana tornou-se excessivamente dependente do avanço tecnológico.

“A composição do crescimento é preocupante”, disse Vincent Reinhart, economista-chefe da BNY Investments. “Ela depende demais dos gastos com tecnologia. E não se trata apenas de um fenômeno dos EUA, mas de um fenômeno global.”

Reinhart acrescentou: “Não é preciso ser pessimista em relação à tecnologia para ficar preocupado”.

Riscos de superaquecimento e recessão Para Robert Sockin, economista-chefe para os EUA da PGIM, o entusiasmo exagerado com a inteligência artificial também levanta temores de um eventual superaquecimento da economia americana.

“Temos chamado este ambiente de a história das caudas mais grossas”, disse Sockin. “Muitas vezes, ocorre um superaquecimento da economia, e isso leva a uma recessão.”

Apesar de a PGIM ter revisado para cima a probabilidade de um ritmo forte de crescimento para o próximo ano, a instituição elevou o risco de recessão, que passou de 10% no início do ano para 20% há um mês. “Diante dos acontecimentos das últimas semanas… talvez seja 25%”, estimou Sockin.

O presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, tentou minimizar os receios, declarando que os motores da força econômica dos EUA não estão concentrados apenas em nichos restritos. Contudo, ele ponderou: “Essa é uma narrativa muito mais difícil de sustentar agora do que teria sido alguns trimestres atrás”, após o banco central optar por manter a taxa de juros inalterada.

Por fim, alguns analistas ponderam que a questão do crescimento frente à inteligência artificial envolve parâmetros comparativos. “Quando falamos de crescimento, muitas vezes medimos a variação de um ano para outro”, explicou Jason Granet, diretor de investimentos e chefe de serviços de crédito da BNY. “Como as empresas de IA cresceram tanto no ano passado, será mais difícil superar esses números. O crescimento pode estar desacelerando, mas isso não indica necessariamente fraqueza na economia.”

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