Para quem sofre com o zumbido dos mosquitos, a inteligência artificial agora oferece uma arma inusitada: um dispositivo baseado em laser capaz de rastrear insetos em pleno voo e queimar suas asas. Fabricado na cidade de Changzhou, o aparelho custa US$ 1.000 e utiliza tecnologias de veículos autônomos para localizar os alvos, recorrendo à inteligência artificial para decidir o momento seguro do disparo.
Durante uma demonstração nos escritórios da Photon Matrix, criadora do equipamento, o sistema demonstrou alta precisão. A máquina, com formato e tamanho semelhantes aos de um tijolo, eliminava os insetos em sequência, acompanhados por pequenos clarões azuis ou verdes e um som de estalo.
Contudo, o processo está longe de ser instantâneo. Segundo Wang Chuan, CEO e fundador da Photon Matrix, os insetos que perdem as asas podem levar horas ou até dias para morrer, permanecendo no chão com leves espasmos. Após a demonstração, os mosquitos abatidos estavam sem asas, mas com corpos e pernas intactos, incapazes de voar mesmo quando submetidos a estímulos diretos.
Riscos e potência do laser O grande desafio do equipamento reside no perigo potencial aos olhos humanos. O aparelho, batizado de Laser Mosquito Air Defense System, emprega um laser Classe 4, a categoria mais potente do mercado, usualmente destinada a fins industriais. Esse tipo de feixe pode provocar lesões na retina em menos de um segundo e exige rigorosas regulamentações.
Enquanto os Estados Unidos lideram as inovações em inteligência artificial avançada, o produto demonstra a velocidade com que a China integra grande capacidade computacional a produtos voltados ao consumidor. A tecnologia também desperta interesse militar, pois sistemas capazes de abater mosquitos poderiam ser adaptados futuramente contra drones.
A Photon Matrix busca licenças regulatórias na China, na Europa e nos Estados Unidos, aguardando breve aprovação em território chinês. Nos Estados Unidos, os fabricantes podem comercializar novos dispositivos a laser após submeter a documentação exigida à Food and Drug Administration (FDA), órgão que não realiza testes laboratoriais próprios nos itens, conforme esclareceu Ken Barat, ex-responsável pela segurança de lasers no Lawrence Berkeley National Laboratory e coautor de padrões técnicos internacionais para o setor.
Segurança e funcionamento Barat avalia que as camadas de proteção do equipamento podem torná-lo seguro, embora ressalte que um laser Classe 4 focado em alvos tão pequenos quanto um mosquito concentra “muita energia” em áreas reduzidas. Nos testes iniciais, a empresa avaliou versões Classe 3, mas constatou que eram ineficazes. Por essa razão, optou pela Classe 4, limitando cada disparo a um centésimo de segundo. Wang explicou que esse intervalo basta para destruir as asas — que absorvem pouco calor —, reduzindo, sem eliminar totalmente, o risco ocular.
Para proteger pessoas e pets, uma câmera com inteligência artificial identifica seres vivos e bloqueia o disparo. O sistema também detecta superfícies reflexivas capazes de desviar o feixe. Um recurso infravermelho ilumina o ambiente noturno, enquanto um radar independente identifica movimentos no trajeto do laser mesmo na escuridão.
Antes da ativação, os compradores precisam responder a um teste de segurança com 15 perguntas. A resposta correta sobre o ambiente menos adequado é o banheiro, devido à umidade, ao espaço reduzido e aos reflexos. Apenas após acertar todas as questões o usuário cadastra a impressão digital para habilitar a máquina.
O sistema de caça emprega a tecnologia lidar, sigla para detecção e medição por luz, comum em carros autônomos. O aparelho dispara 100 mil pulsos fracos de laser por segundo para mapear uma zona bidimensional, rastreando objetos menores que uma ervilha.
A proposta de eliminar mosquitos com lasers antecede o atual boom da inteligência artificial. Em 2010, a Intellectual Ventures, fundada por um ex-diretor de tecnologia da Microsoft, apresentou uma proposta similar, mas o projeto nunca ganhou escala comercial. Atualmente, a Photon Matrix afirma já contar com 5.000 encomendas pagas antecipadamente e um parceiro industrial para iniciar a produção em massa nas próximas semanas, enquanto Wang já projeta uma nova geração com disparos ainda mais curtos, projetados para que a umidade natural dos olhos absorva a energia antes de atingir a retina.
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