A teranóstica surge como uma estratégia inovadora na medicina ao unir exames de imagem e terapias direcionadas contra o câncer. Derivado da união entre os termos terapia e diagnóstico, o método tem como precursor o uso do iodo radioativo no câncer de tireoide, implementado ainda na década de 1940. De forma simplificada, a técnica busca uma característica biológica que apareça em grande quantidade nas células malignas. Uma molécula capaz de reconhecer esse alvo é acoplada a um material radioativo, viabilizando a localização do tumor por meio de exames de imagem. Caso o paciente tenha indicação e as lesões apresentem o marcador buscado, essa mesma via é empregada para direcionar radiação diretamente ao foco da doença.
O progresso recente nessa área decorre da descoberta de novos alvos e do aprimoramento de radioisótopos voltados para tratamentos. Além do tumor de tireoide, a metodologia já possui aplicações práticas em neoplasias neuroendócrinas e no câncer de próstata.
O papel do PSMA e a personalização
Entre os principais marcadores está o PSMA, uma proteína expressa em maior volume nas células doentes do que nos tecidos sadios. Um exame de PET consegue evidenciar quais lesões absorvem a molécula direcionada ao PSMA e o grau dessa captação. Em grupos selecionados de pacientes, o mesmo alvo serve para conduzir o lutécio-177, emissor de radiação beta, até as regiões acometidas. “A imagem hoje é parte essencial do tratamento. E não é só ter o diagnóstico de um câncer de próstata que ele necessariamente vai expressar o PSMA”, explica o médico Marcelo Araújo Queiroz, gerente de Medicina Nuclear e Teranóstico do Einstein Hospital Israelita.
Tumores classificados de idêntica maneira nem sempre compartilham o mesmo perfil biológico. Essa divergência pode manifestar-se inclusive em um único organismo, onde algumas metástases concentram mais um determinado alvo do que outras. Além de apontar a presença ou ausência da característica buscada, os exames começam a ser empregados para prever se a intensidade de captação do radiofármaco ajudará a antecipar a resposta terapêutica.
Desafios e frentes de investigação
Apesar da personalização na escolha do alvo e do paciente, a quantidade de radioisótopo administrada em certos protocolos obedece a padrões fixos. Trata-se de uma questão ainda em aberto. “Será que, para alguns pacientes, quatro ciclos já seriam suficientes para entregar a dose necessária ao tumor? Ou outros precisariam de oito ciclos para chegar à quantidade de radiação necessária?”, questiona Queiroz.
Uma alternativa em estudo é calibrar a dose com base na radiação efetivamente absorvida pelas lesões e tecidos sadios, processo conhecido como dosimetria. Embora aplicada em centros especializados do exterior, sua adoção para estipular a radioatividade administrada e o total de ciclos ainda carece de validação ampla por meio de evidências científicas robustas. Outras linhas investigativas unem a teranóstica à imunoterapia, terapias-alvo e a diferentes radioisótopos ao longo do acompanhamento médico.
Pesquisas no Brasil e gargalos estruturais
Em São Paulo, o Centro de Inovação em Câncer com Ênfase em Metais e Teranóstico (CancerThera), financiado pela Fapesp, lidera investigações para ampliar o alcance da técnica. Nos primeiros três anos do projeto, mais de mil pacientes passaram por avaliações de imagem para mapear o PSMA em diferentes neoplasias.
Os dados revelaram discrepâncias expressivas entre pacientes com o mesmo diagnóstico e entre áreas distintas da doença no mesmo indivíduo. “Alguns tumores apresentam maior avidez, ou seja, alta captação do marcador, em determinados pacientes e não em outros. Essa característica também pode variar entre diferentes áreas do tumor”, afirma o pesquisador principal e diretor médico onco-hematologista Carmino Antônio de Souza, professor titular da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp).
O grupo estuda ampliar o uso do PSMA para além da próstata, visto que ele também pode associar-se à neoangiogênese — a formação de novos vasos sanguíneos — em outros tipos tumorais. No Einstein, a abordagem integra toda a jornada assistencial com o suporte de equipamentos PET-CT e SPECT-CT de ponta, softwares de análise e ferramentas de inteligência artificial.
Entre os obstáculos para a expansão da teranóstica no país está a dependência da importação de materiais radioativos, o que encarece e limita os procedimentos. A expectativa é que o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), previsto para 2030 no interior paulista, garanta autonomia na produção nacional de insumos como o lutécio-177.
Efeitos colaterais e cuidados necessários
O tratamento direcionado não atinge exclusivamente as células cancerosas; tecidos saudáveis também podem absorver parte do radiofármaco. No caso do PSMA, as glândulas salivares captam a substância, provocando em alguns pacientes a xerostomia, marcada pela diminuição na produção de saliva. Rins e medula óssea também exigem monitoramento. Em tumores neuroendócrinos tratados com lutécio-DOTATATO, por exemplo, a administração de aminoácidos protege os rins, enquanto o estímulo à diurese acelera a eliminação do elemento radioativo.
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