A taxa básica de juros no Brasil deve permanecer em patamares de dois dígitos pelo menos até 2028, segundo projeção do ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola. Durante participação no episódio do Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo, o economista destacou que a falta de controle nas contas públicas e o aumento contínuo da dívida estatal pressionam a política monetária e impedem reduções mais expressivas na Selic.
Para o especialista, tentar conter o cenário macroeconômico exclusivamente por meio da autoridade monetária, sem o devido suporte orçamentário, é uma estratégia ineficaz que pode gerar o resultado oposto. “Não adianta você ter uma situação fiscal horrível, terrível, e o Banco Central querer segurar a economia e o tranco todo na taxa de juros”, afirmou.
O perigo do ciclo vicioso da dívida pública
Loyola explicou que a ausência de ajustes estruturais cria um mecanismo autossustentável de deterioração financeira.
“Se cria um círculo vicioso: os juros mais altos geram um aumento da dívida pública; o aumento da dívida pública não tem nenhuma contrapartida do ponto de vista de controle do resultado primário; isso aumenta o prêmio de risco, pede-se mais juros, enfim, vira um círculo vicioso, uma bola de neve”, pontuou.
Além disso, o ex-dirigente ressaltou que a autarquia monetária atua solitária no combate aos desequilíbrios, o que atrai críticas intensas de políticos e agentes do mercado financeiro que cobram flexibilização monetária de forma precipitada.
“Uma andorinha só não faz verão; o Banco Central sozinho não consegue segurar o tranco. Evidentemente ele vai ficar muito pressionado – as pressões virão, porque, na ausência de um ajuste fiscal e numa economia mais anêmica, não vai faltar crítica ao Banco Central”, avaliou.
Cenário inflacionário e trajetória perigosa
Fatores externos e internos, como o câmbio, a inflação global e a meta de 3%, também afastam a possibilidade de um alívio monetário a curto prazo. Mesmo com a desaceleração da economia e a queda das commodities, o prêmio de risco elevado impedirá o retorno aos patamares de juros vistos antes da pandemia.
“Eu acredito que, mesmo que surja espaço para queda de juros, eu diria que ainda continuarão em dois dígitos pelo menos até 2028, no mínimo”, cravou o economista, reforçando: “Eu não vejo condição de voltar a um patamar de juros que nós tivemos, por exemplo, na pré-pandemia”.
Por fim, a resistência do meio político em priorizar as restrições orçamentárias agrava o quadro a longo prazo, mantendo o país em uma rota preocupante, embora não aponte para um colapso imediato.
“Acho que não é uma situação de se ter medo, não acho que o Brasil está diante de uma crise iminente do ponto de vista econômico, mas eu diria que nós estamos numa trajetória bastante perigosa”, concluiu Loyola.
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