Conhecido por suas obras de não ficção dedicadas à história da escravidão no país, o escritor Matheus Gato estreia na poesia com a publicação de “Ridículo”, obra lançada pelo Círculo de Poemas. Inspirado por James Baldwin, o autor busca alcançar o chamado grau zero da negritude em seus versos.
Embora esta seja sua primeira incursão literária fora da não ficção, o escritor relata que já transitava pelo meio artístico desde a juventude. “É a primeira fora da área de não ficção, mas desde a adolescência eu participava de festivais, de pequenas coletâneas de poesia. Minha mãe é atriz e, em São Luís do Maranhão, onde cresci, eu vivia num meio artístico em que a poesia era muito importante. Grandes amigos meus e influências intelectuais são poetas”, afirma.
Entre suas referências, ele destaca nomes como Josoaldo Lima Rêgo, Dyl Pires e Paulo Scott. O autor também aponta a forte influência de James Baldwin, cuja citação de “Just Above My Head” serve de epígrafe para a plaquete.
O desafio estético de Ridículo O principal objetivo criativo ao elaborar a plaquete foi despojar a poesia negra de artifícios tradicionais. Segundo o autor, embora admira a poesia negra, parte da produção costuma carregar símbolos da cultura afro-brasileira.
“O desafio que me coloquei, para esta plaquete, foi fazer algo que pudesse ser poesia negra, com suas questões, mas que abrisse mão desses símbolos e apresentasse uma questão existencial, quase metafísica. Queria chegar no grau zero da negritude: limpar referências aos orixás e outros símbolos e deixar só o osso da questão”, explica.
A relação entre a escrita poética e a sociologia também é central para o seu processo criativo. Para ele, a poesia atua como ferramenta de reflexão sobre a própria linguagem. “Tenho vários modos de me expressar, mas tem coisas que só são pensáveis como poesia. Ela te ajuda a pensar a sociologia, a política; é o lugar onde você pode pensar a linguagem. Como somos constituídos de linguagem, embebidos nela, a poesia é como o lugar em que o peixe vê a água e percebe: ‘uau, é água!’.”
Súplicas e o peso da palavra A estrutura dos poemas em forma de preces ou súplicas remete a referências bíblicas e à condição humana. “Tem um verso dos Salmos que diz: ‘Aquele que mora nos céus se ri. O senhor os reduz ao ridículo’. Esse salmo estava em uma das versões do poema, mas fui limpando, limpando, e tirei… Mas é importante, porque, se essas súplicas tivessem resposta, seria a zombaria de Deus, o desdém. É a nossa impotência e insignificância”, detalha.
Ao abordar o peso do vocabulário, o escritor destaca passagens do livro: “Também falo que ‘negros são os caminhos do exílio no verbo’, ou seja, um lugar onde as possibilidades de existência são rasuradas. Uma palavra é escura e pesada quando você consegue colocar dramas existenciais na linguagem e falar da condição negra sem elementos alegóricos afro-brasileiros óbvios. Tentei desesperadamente fazer isso na plaquete.”
Panorama da literatura negra e o mercado editorial Para o autor, as discussões atuais em torno da literatura negra são fundamentais para resgatar a complexidade humana de personagens historicamente marginalizados. “É necessário construir o lugar de uma literatura negra sim, se negro for um universo inteiro, camadas infindáveis de humanidade a serem descobertas. Escritores e escritoras estão devolvendo isso a pessoas que aprenderam a ver o negro como objeto, serviçal, e não o identificavam como drama humano digno de literatura. Estão devolvendo a universalidade que a violência impossibilitou enxergar.”
Apesar do momento de visibilidade e interesse comercial, o escritor aponta barre estruturais persistentes. “Por décadas, houve um enorme racismo editorial no país. Hoje é ‘vendável’, o que é interessante, mas há um gargalo, muita aposta em autores estrangeiros consagrados e pouca em escritores jovens. Quem banca o florescimento da literatura negra no Brasil é o circuito alternativo, o mainstream arrisca muito pouco.”
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