A busca pelas origens e memórias familiares levou uma bisneta a desvendar o passado político de seu bisavô, João Sampaio de Alcântara, em arquivos de órgãos de segurança do Estado. O que começou como uma lembrança afetuosa de infância e de brincadeiras transformou-se em uma investigação profunda sobre repressão, resistência e silenciamentos históricos comuns a muitas famílias brasileiras, especialmente as negras.
Memórias de infância e herança familiar
Nas recordações da infância, o bisavô chegava aos encontros sereno, usando chapéu, e sempre fazia a mesma brincadeira ao encontrá-la: “Juliana, era você que estava na roda com João?”. A pergunta fazia referência à canção “Domingo no parque”, de Gilberto Gil, e guardava relação com a escolha do nome da bisneta.
Durante muito tempo, as informações sobre a trajetória política de João Sampaio de Alcântara eram escassas na família. S sabia vagamente que ele havia sido preso ao lado de um tio-avô durante o período da ditadura militar, mas os detalhes vinham apenas pelos relatos das mulheres da família, que tentavam proteger os mais novos dos traumas vividos.
O encontro com os arquivos da repressão
A pesquisa em documentos policiais e judiciais trouxe uma nova perspectiva sobre o antepassado. Baseando-se em conceitos teóricos sobre memória e poder, a busca revelou que os registros estatais enxergavam o trabalhador sob a ótica da vigilância. “Encontrei não só meu bisavô na ditadura, mas um trabalhador que havia sido preso por liderar uma greve”, aponta o levantamento.
Os papéis mostraram que João Sampaio de Alcântara já possuía uma trajetória anterior de mobilização, tendo sido detido nos anos 50 por encabeçar paralisações da construção civil. Em depoimentos da época, o próprio antepassado argumentava que buscava apenas melhores condições de sustento para a família. Os registros também mencionam a ligação com uma célula política chamada Zumbi.
Entre a documentação oficial e a memória afetiva
Apesar da riqueza de detalhes obtidos nos dossiês, a investigação destacou o contraste entre a visão fria e administrativa do Estado — que tratava o militante como suspeito — e o afeto construído no ambiente familiar. “É estranho receber parte da trajetória de um antepassado pelas mãos de quem o considerou suspeito”, reflete o texto.
A busca continua por meio de novas pistas, relatos de parentes e memórias afetivas que escapam aos arquivos formais, mantendo vivo o legado de um homem que marcou gerações.
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