Pelo menos cinco grupos empresariais nacionais e estrangeiros estão se movimentando para ocupar espaço nos setores de urânio e energia nuclear no Brasil. A articulação ocorre enquanto a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva elabora novas normativas para viabilizar parcerias entre a iniciativa privada e a INB (Indústrias Nucleares do Brasil), estatal que atualmente detém o monopólio da exploração do minério no país.
Os dados foram levantados com base em registros da ANM (Agência Nacional de Mineração), informações de empresas do ramo e comunicados oficiais divulgados por companhias no exterior. Entre os movimentos mapeados, destacam-se uma aliança entre a gigante russa Rosatom e ex-integrantes da gestão de Jair Bolsonaro, além de investimentos de mineradoras da Austrália e de uma companhia com atuação nuclear nos Estados Unidos. Os planos englobam desde a pesquisa mineral e a extração de urânio junto a terras raras até a criação de pequenos reatores e a geração de energia elétrica.
Articulação política e novos negócios
Atualmente, a lei aprovada em dezembro de 2022 abriu espaço para parcerias da INB com a iniciativa privada sem revogar o monopólio da União. O mercado agora aguarda a publicação de um decreto federal para definir os detalhes operacionais. O levantamento identificou o grupo Diamante, a Atlas Critical Minerals, a Core Energy Minerals, a BRE (Brazilian Rare Earths) e a Energy Fuels em diferentes estágios de avaliação geológica e testes industriais.
O grupo brasileiro Diamante escalou ex-integrantes da cúpula do setor elétrico para capitanear sua entrada na área nuclear. A gestão do negócio ficou com Bento Albuquerque, que comandou o Ministério de Minas e Energia entre 2019 e 2022, e Ney Zanella dos Santos, ex-presidente da ENBPar — estatal que controla a INB e a fatia da União na Eletronuclear.
Bento preside o conselho do grupo, enquanto Zanella lidera a NBEPar (Núcleo Brasil Energia Participações), criada em 2024 para gerenciar os investimentos nucleares. Por meio dessa estrutura, a Diamante fechou parceria com a Rosatom para criar a Nadina Minerals, com foco em projetos de mineração de urânio no país. Em maio, os executivos visitaram instalações de processamento de urânio na Rússia acompanhados de Pedro Kassab, vice-presidente da Diamante.
O plano do grupo envolve trazer ao território nacional uma técnica que injeta soluções químicas no subsolo para recuperar o urânio. Além disso, por meio da Terminus, empresa assumida em 2025, a Diamante atua no desenvolvimento de um microrreator nuclear com apoio de instituições de pesquisa e da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).
Movimentações internacionais no país
Outra player ativa é a Atlas Critical Minerals, constituída nas Ilhas Marshall, com sede em Belo Horizonte e papéis negociados na Nasdaq. Em fevereiro, a companhia informou deter 39 processos minerários com indícios de urânio, abrangendo 143,7 mil hectares que inicialmente visavam outros minérios, como fosfato, grafita, cobre e terras raras.
“Antecipando potenciais mudanças legislativas no Brasil nos próximos anos, estamos avaliando estrategicamente áreas com potencial de urânio”, diz a empresa.
A australiana Core Energy Minerals concentra três iniciativas voltadas ao minério nuclear em Goiás, Paraíba e Rio Grande do Sul, abrangendo centenas de quilômetros quadrados onde já realiza trabalhos de geologia, amostragem e medição radioativa. Já a compatriota BRE (Brazilian Rare Earths) pretende extrair urânio associado a terras raras no projeto Monte Alto, na Bahia, com beneficiamento em Camaçari para gerar “yellowcake”, concentrado essencial para a cadeia de combustível.
Em ofícios e comunicados ao mercado, a BRE destacou que a segunda etapa de sua planta piloto, agendada para o segundo trimestre de 2027, testará a recuperação do material. Os estudos preliminares preveem uma média de 466 toneladas anuais de concentrado de urânio, com potencial de atingir 540 toneladas anuais nos primeiros cinco anos de estabilidade. A empresa ressalta que o negócio depende da regulamentação brasileira e de acordos com a INB, com a qual assinou em maio de 2024 um “memorando de entendimento não vinculante para colaboração no desenvolvimento de potenciais coprodutos de urânio”.
A Energy Fuels, canadense com operações nucleares nos EUA, também mira o solo baiano por meio do Projeto Bahia, iniciado em 2023, com foco na exploração de monazita rica em terras raras e urânio. A companhia classificou o empreendimento como uma “pesquisa de areias minerais pesadas em estágio inicial” que avançará “somente com as autorizações necessárias e em plena conformidade com a legislação brasileira”.
No setor elétrico, o mercado também especula sobre a atuação dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Em outubro de 2025, o family office Globe Investimentos firmou contrato de R$ 535 milhões para comprar a participação da Eletrobras na Eletronuclear, controladora de Angra 1, Angra 2 e do projeto de Angra 3. Joesley chegou a visitar a unidade da INB em Caetité (BA), embora o grupo negue interesse em mineração.
Reformulação e próximos passos
A cadeia nuclear brasileira ainda apresenta gargalos, pois o país extrai e concentra o minério em Caetité, mas terceiriza no exterior a conversão em gás e parte do enriquecimento. O material retorna para ser transformado pela INB em combustível para as usinas de Angra dos Reis, processo que também conta com capacidade parcial de enriquecimento em Resende (RJ).
Enquanto isso, o Ministério de Minas e Energia debate a reformulação regulatória. A pasta informou que a elaboração do decreto de parcerias privadas segue em análise técnica, em articulação com a Casa Civil. Em paralelo, a INB desenvolve o Programa Pró-Urânio junto ao BNDES e à ENBPar para estruturar novos modelos de negócios até o segundo trimestre de 2027.
Atualmente, a única parceria ativa da INB ocorre com a Galvani na jazida de Itataia, no Ceará, por meio da Fosnor. O projeto integrado prevê a exploração simultânea de fosfato para fertilizantes e de urânio para a estatal, aguardando licenciamento para iniciar a produção comercial estimada em 2.300 toneladas anuais de concentrado de urânio.
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