Piora na percepção de risco pós-eleição pressiona BC a interromper ciclo de cortes de juros

Risco pós-eleição pressiona Banco Central a pausar cortes na Selic

Mercados

A deterioração na percepção de risco dos investidores após a reeleição do presidente Lula (PT) deve pressionar o Copom (Comitê de Política Monetária) a interromper o ciclo de cortes de juros, com a taxa básica (Selic) estacionada em 13,75% ao ano. A decisão ocorre em meio a um ambiente desafiador para a economia.

Fatores como a depreciação da taxa de câmbio, a incerteza fiscal, o estresse gerado nos juros futuros e a alta do petróleo tornaram o cenário mais complexo para o controle da inflação nos próximos anos, abalando as apostas do mercado financeiro. Essa reviravolta pós-eleitoral fez com que parte expressiva dos agentes econômicos abandonasse a projeção de um novo corte de 0,25 ponto percentual na Selic — que seria o sexto consecutivo — para defender uma pausa na flexibilização monetária diante da turbulência interna.

Visões do mercado financeiro

O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria, declarou estar mais inclinado à manutenção dos juros e a uma postura mais cautelosa do Copom após a volatilidade gerada pelas eleições, embora não descarte totalmente uma queda de 0,25 ponto percentual, para 13,5% ao ano. Segundo ele, o BC possui instrumentos limitados para lidar com variáveis externas, a exemplo do cenário internacional desfavorável decorrente do conflito no Oriente Médio, além da questão fiscal e de medidas expansionistas do governo que anulam o esforço de conter a demanda agregada.

“É uma situação muito ruim, porque o Banco Central gasta munição, afeta a economia como um todo e leva a um aumento da inadimplência muito grande das famílias e das empresas em vão”, diz. “Es como se estivesse dando um remédio que só tivesse efeito colateral, porque o paciente está tomando outro medicamento que anula os efeitos pretendidos.”

Loyola avalia que o quadro só vai melhorar quando o governo Lula emitir sinais que levem os economistas a acreditarem na possibilidade de ajuste fiscal nos próximos meses. Enquanto isso, o dólar encerrou cotado a R$ 5,447, registrando o maior avanço semanal em 18 anos, com alta de 9,18%, patamar não visto desde a crise hipotecária nos Estados Unidos.

Sérgio Werlang, ex-diretor do BC e professor da FGV, aponta que a interrupção no ciclo de quedas serve para ganhar tempo e observar a permanência ou transitoriedade das mudanças no câmbio e nas inflações projetadas.

“Se por acaso se confirmar que Lula 4 será igual a Lula 3, e acho que há uma probabilidade não baixa [de isso acontecer], o câmbio pode ir para muito mais de R$ 5,40”, afirma. “Se o câmbio subir muito mais, ele [BC] pode ser forçado a dizer que vai subir o juro”, acrescenta.

Werlang também alerta para o risco de dominância fiscal, situação em que o governo perde o controle da inflação por causa da expansão de gastos. “Eu morro de medo de nós, com isso, chegarmos na dominância fiscal. […] A gente não sabe exatamente qual é o número, mas sabe que está se chegando. Se o governo Lula fizer uma política fiscal igual à da [gestão] Lula 3, vai atingir esse valor de dominância fiscal logo, num futuro não muito distante.”

“Nesse caso, é irrelevante o Banco Central aumentar o juro porque não vai ter efeito nenhum e nós vamos ter só mais inflação”, diz.

Projeções e inflação

Para Fernanda Guardado, ex-diretora do BC e economista-chefe para América Latina do BNP Paribas, o Copom não pode ignorar a deterioração inflacionária e precisará adotar cautela para preservar sua credibilidade. Ela projeta que a inflação para 2027 no boletim Focus ultrapassará 5% — acima do teto da meta de 4,5%. Riscos adicionais vêm de combustíveis, do fim da escala 6×1 e dos efeitos da reforma tributária com a CBS fixada em 11,3%.

“Como cortar juros com um cenário que está piorando? O Banco Central arrisca ter um vetor extra de deterioração, que é as pessoas acreditarem menos na determinação dele em trazer a inflação para baixo”, afirma.

Ela defende a manutenção dos juros até março do próximo ano, período que trará mais clareza sobre o El Niño, a desaceleração econômica e os planos fiscais. “O Banco Central terá uma ideia melhor se o nível da taxa de juros vai ser suficiente ou não para trazer a inflação para a meta no horizonte relevante. Hoje, um nível de Selic mais baixo não vai ser compatível com um Banco Central que quer trazer a inflação para a meta de 3% ainda em meados de 2028”, diz.

Alberto Ramos, do Goldman Sachs, reforça que a situação para a inflação ficou ainda mais sensível, citando a nova estrutura de pesos do IPCA pelo IBGE, que dará maior destaque aos serviços, e a ausência de uma âncora fiscal sólida no curto e médio prazo.

“Tem muita pressão da inflação e sem perspectiva de ter uma âncora fiscal. Então, deixa uma pressão muito grande sobre o Banco Central, a ponto de o mercado já estar precificando aumento de juros. A gente acha que a fasquia [o sarrafo] para aumentar os juros é muito elevada. Não tem margem certamente para cortar”, avalia.

Em contrapartida, Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, figura entre os analistas que apostam em um último ajuste redutor antes da pausa. Ela prevê que o Copom corte a Selic em mais 0,25 ponto percentual e sinalize a interrupção para dezembro.

“Apesar da maior incerteza e aumento do prêmio de risco [rentabilidade adicional exigida pelos investidores para aplicar dinheiro no Brasil] na curva de juros futuros, a taxa Selic em 13,50% permanece restritiva o suficiente para amortecer os choques inflacionários esperados para o começo de 2027”, declarou em relatório.

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