Smartphones e agito: como a Geração Z está mudando as salas de cinema

Geração Z transforma as salas de cinema no Brasil com celulares e agito

Economia

Enquanto o mercado exibidor brasileiro ainda busca recuperar o patamar de público anterior à crise sanitária da Covid-19, executivos e especialistas apontam uma transformação profunda no comportamento e no perfil dos novos consumidores. A Geração Z, formada por jovens nascidos entre 1997 e 2012, tem se destacado pelo forte interesse no circuito cinematográfico, mas também por trazer para as sessões uma relação intensa com os smartphones e formas inéditas de interação coletiva.

Embora não disponha de dados relacionados a essa transformação particular dos modos do público, a Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (Abraplex) avalia que o interesse da Geração Z pelo circuito é um destaque no recorte recente.

“A mudança está menos na conduta dentro da sala e mais nos hábitos de consumo”, avalia o diretor-executivo da Abraplex, Tiago Mafra. A avaliação encontra eco na gestão de grandes redes do país. “É uma geração que nasceu com o celular nas mãos, faz parte do corpo delas”, aponta o gerente de marketing da Cinépolis Brasil, Luiz Fernando Angi.

Choque de gerações e o fator social

Nas redes sociais, como no X (antigo Twitter), a busca por “celular no cinema” revela dezenas de reclamações sobre o uso de aparelhos e conversas em voz alta durante as exibições. “Vou parecer boomer, mas gostava da época em que as pessoas tinham muita cautela em não estragar a experiência de desconhecidos no cinema”, escreve uma usuária em referência ao choque geracional e à geração Baby Boomer, dos nascidos entre 1946 e 1964.

Apesar da ironia, o incômodo tem respaldo estatístico. Um levantamento divulgado em 2026 pela plataforma de venda de ingressos Fandango com 7 mil adultos nos Estados Unidos revela que 87% dos integrantes da Geração Z foram ao cinema ao menos uma vez nos 12 meses anteriores. O índice supera os 82% dos Millennials, 70% da Geração X e 58% dos Baby Boomers.

“Criada em um ambiente intensamente conectado, essa geração aponta, segundo o próprio estudo, a dimensão social como principal motivo para ir ao cinema”, afirma Mafra. “Busca justamente o que a tela do celular não oferece, como imersão, convivência e experiência compartilhada, e por isso se tornou um dos públicos mais estratégicos para o setor exibidor.”

Apesar dos relatos de barulho e uso de telas, Angi pondera que o volume de reclamações formais na Cinépolis não sofreu saltos drásticos. “Não é algo perene. Acontece com alguns tipos de conteúdo, por exemplo quando há música e gera maior interação”, afirma Angi.

Fenômenos de bilheteria e eventos temáticos

Um reflexo disso foi visto na cinebiografia de Michael Jackson, intitulada “Michael”, que atraiu o doble do público projetado às salas da Cinépolis em 2026. O título virou um fenômeno com sessões marcadas por cantoria e dança ao som do Rei do Pop, levando 7,6 milhões de pessoas aos cinemas brasileiros e garantindo a terceira maior bilheteria do ano.

Desde as dificuldades impostas pela pandemia em 2020, as exibições se diversificaram com shows de K-pop e especiais para fãs de animações japonesas. Nesses eventos, o público costuma ir vestido a caráter, expressando empolgação em pé e em alto som, o que é esperado e tolerado por todos.

O forte senso de comunidade, contudo, também transborda para os filmes tradicionais. “Essa nova geração que chega para assistir os conteúdos mais tradicionais às vezes tem uma forma diferente de estarem no cinema”, afirma o gerente de marketing.

“As pessoas gostam de pertencer, de ir ao cinema com uma certa comunidade, para assistir um certo conteúdo que viralizou. Acontece muito com filmes inspirados em livros, por exemplo. Às vezes as comunidades têm essa interação, comentam o filme como se estivessem na sala de casa”, aponta.

Estratégias para educar o público

Para amenizar os transtornos gerados por essa nova dinâmica, as redes apostam em filmes pré-show aprimorados — peças institucionais exibidas antes dos longas com orientações sobre segurança e uso de celulares. Com custos que podem chegar a R$ 100 mil e baseados em briefings enviados a agências de publicidade, os materiais estão mais sofisticados, segundo Angi.

“Esses conteúdos são mais assertivos”, diz Angi, destacando que a mensagem chega quando o espectador já está focado na tela.

Outra tática para conter o uso de dispositivos móveis dentro da sala é criar espaços interativos no saguão, a exemplo da caixa em tamanho real da boneca Barbie instalada em cinemas durante o lançamento do filme em 2023. “A pessoa quer mostrar que faz parte daquilo. Ela precisa registrar, tirar uma foto.”

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