O mais importante prêmio da Academia Francesa, o Goncourt, anunciou nesta terça-feira (3) o vencedor da premiação deste ano: Philippe Jaenada, por L’inconnue du quai de Javel, publicado em agosto pelo selo Flammarion. O romance resgata a história do assassinato da modelo Louise Cansot, ocorrido em Paris em setembro de 1949.
Investigação e reconstituição histórica
Uma das modelos mais famosas de sua época, Cansot foi encontrada morta no bairro de Montparnasse. Após a descoberta do corpo, quatro suspeitos surgiram, mas o caso foi arquivado por falta de provas. No romance, Jaenada reabre o caso — revisitando as anotações de policiais da época, que classificavam a modelo como uma mulher de “má reputação” —, e sugere uma solução, misturando investigação e narrativa histórica.
Nascido em 1964, Jaenada é jornalista e começou a carreira publicando romances autobiográficos, como Le Chameau sauvage (1997) e Le Cosmonaute (2002), inéditos no Brasil.
Em 2013, o autor passou a se dedicar à ficção de crimes reais, publicando Sulak (2014), sobre Bruno Sulak, ladrão de joalherias da década de 1980; La Petite femelle (2015), sobre Pauline Dubuisson, acusada em 1953 de ter assassinado seu amante; e La Serpe (2017), em que analisa a acusação de triplo homicídio do escritor Georges Arnaud em 1941, pelo qual ganhou o prêmio Femina.
Suas obras, ainda inéditas no Brasil, são marcadas pelo olhar irônico e uma prosa segura, segundo o jornal francês Le Monde.
Autor de treze romances, o escritor havia sido indicado outras três vezes ao Goncourt. Além de Jaenada, outros três escritores disputavam o prêmio: Yannick Haenel, por La solitude des professeurs est infinie; Clémentine Mélois, por Choses que je croyais perdues; e Sylvain Prudhomme, por De l’autre côté du lac.
Percalços na edição de 2026
Em 2025, o vencedor do Goncourt foi Laurent Mauvignier, premiado por La maison vide, no qual reconstitui a história da sua família na zona rural francesa.
A premiação enfrentou percalços em 2026. Em agosto, Didier Decoin, roteirista francês e presidente do Goncourt de 2020 a 2024, morreu em decorrência de um câncer, reduzindo o júri para nove membros em vez dos dez usuais.
Depois, em setembro, o romance C’était ça ou mourir, do canadense-haitiano Thélyson Orélien, foi removido da seleção inicial do comitê por acusações de plágio e uso de inteligência artificial. Orélien reconheceu o plágio e disse que usou IA para pesquisa e traduções. A editora canadense Boréal admitiu que ferramentas de inteligência artificial foram usadas no processo de escrita e rompeu o contrato com o escritor.
Desde a primeira entrega do Goncourt, em 1903, apenas treze mulheres venceram a categoria principal. Em 2009, a francesa-senegalesa Marie NDiaye foi a primeira mulher negra a levar para casa o prêmio literário mais prestigioso da França.
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