A ‘pequena’ ética

Novidades literárias reúnem romances, poesias e ensaios nas livrarias

Cultura

O mercado editorial brasileiro recebe uma ampla seleção de novidades nesta semana, destacando-se o livro de estreia da escritora Luana Chnaiderman, além de obras de Stefano Mancuso, Lilian Sais, Sérgio Rodrigues, Luiz Antonio Simas e outros autores de destaque.

Destaques da semana

Em Etiqueta, lançado pela Record por R$ 79,90 (256 pp), a escritora Luana Chnaiderman brinca com o sentido da palavra, que, no livro difícil de rotular, é uma referência à ética do dia a dia. No romance, que chega esta semana às livrarias, a autora embaralha Antiguidade clássica, lembranças de seu avô, Boris Schnaiderman, doadores de sêmen e música de sofrência.

Em seu primeiro romance, a autora da coletânea de contos Os animais domésticos e outras receitas (Perspeciva, 2018) mistura suas lembranças do avô, Boris Schnaiderman, a história de Dido, rainha de Cartago cantada na Eneida, de Virgílio, e os dilemas de uma mulher em seus quarenta anos que deseja ser mãe.

“Em Etiqueta há várias histórias. Quais são elas? Uma é sobre o que lembro do meu avô [o tradutor e escritor Boris Schnaiderman]. Ele foi uma espécie de norte para o livro — é de onde vem o nome. Tem um aspecto de ‘etiqueta’ que é ser rotulador, mas tem o lado da pequena ética cotidiana. Meu avô era isso — um homem ético no dia a dia. Outra história é sobre Dido [rainha de Cartago, cantada na Eneida, de Virgílio], que vive um caso de amor com um estrangeiro e perde o trono. Também quis falar de uma mulher de 42 anos que se separa e tem vontade de ser mãe, aquela coisa do relógio biológico, das relações sexuais e afetivas e do mercado da inseminação artificial. Queria um romance que fosse engraçado, comovente e sexy”, conta Luana Chnaiderman em entrevista.

Outro destaque é O cântico da terra, de Stefano Mancuso, com tradução de Regina Silva e publicado pela Ubu (144 pp, R$ 99). O fundador da neurobiologia vegetal, autor de Revolução das plantas: um novo modelo para o futuro (2021), se inspira na poesia de São Francisco de Assis para falar sobre o cuidado e o amor para com os seres vivos.

“Não é banal compreender a eficiência sofisticada das plantas na difícil empreitada de capturar a luz. Para mim, o dia da iluminação (de novo a luz) ocorreu durante uma das minhas primeiras viagens de campo como jovem doutorando. Minha tarefa era medir a fotossíntese em oliveiras pertencentes a variedades com origens geográficas diversas. Era um trabalho longo, repetitivo e cansativo: eu tinha que monitorar a planta, medindo-a a cada trinta minutos, do amanhecer ao anoitecer”, aponta trecho da obra.

Poesia e ensaios

A seleção de novidades também conta com Controlar a boca, de Lilian Sais, lançado pelo Círculo de Poemas (128 pp, R$ 74,90). Entre os cadernos de receita deixados por sua mãe, a autora resgata nestes poemas o afeto e a memória, costurando a vivência da matriarca, tirada da escola logo após aprender a escrever, à sua própria história com as palavras.

Na política e na crônica, Esse estranho agora: a era de ouro do analfabetismo crítico, de Sérgio Rodrigues (Arquipélago, 208 pp, R$ 69,90), traz uma coletânea de textos publicados na coluna semanal do jornalista na Folha de S.Paulo, em que trata de temas como o avanço da extrema direita global, a crise climática e as redes sociais a partir de mudanças na linguagem cotidiana. O autor é conhecido por O drible (2013) e A vida futura (2022), publicados pela Companhia das Letras.

Já o historiador Luiz Antonio Simas assina Tantas Marias: Nossa Senhora na cultura popular (Civilização Brasileira, 128 pp, R$ 59,90). Autor de O corpo encantado das ruas (Record, 2019), ele investiga a devoção a Nossa Senhora em suas diversas manifestações na cultura brasileira, de Maria a Aparecida, do futebol ao samba e à literatura.

Ancestralidade, arte e filosofia

O livro Um mapa para a porta do não retorno: notas para o pertencimento, de Dionne Brand, tem tradução de Jess Oliveira e floresta, prefácio da autora e posfácio de Saidiya Hartman (Zahar, 240 pp, R$ 99,90). Nascida em Trinidad e Tobago, a autora explora o tema da ancestralidade e do pertencimento de pessoas escravizadas por meio da metáfora da “porta do não retorno”, entre o desenraizamento forçado e a reinvenção de seus descendentes.

No campo da dramaturgia e das artes visuais, O escravo que adorava caviar, de Ishmael Reed, tem tradução de Rafael Mantovani e posfácio de Leandro Muniz (Ercolano, 128 pp, R$ 82,70). Tendo a relação de Andy Warhol com Jean-Michel Basquiat como fundo, a peça de teatro reflete sobre a exploração material e simbólica do mercado da arte a partir da figura de um vampiro que procura sangue novo, do autor de Mumbo Jumbo (Zain, 2025).

A relação e o pensamento social aparecem em O mar entre nós: pensar o mundo com Édouard Glissant, de Ana Kiffer (Bazar do Tempo, 208 pp, R$ 79). A autora usa o pensamento do filósofo martinicano para imaginar novas formas de se viver junto a partir da Relação, noção poético-política criada por Glissant, navegando por temas como identidade, comunidade, solidão, amor e conflito.

Fechando os principais destaques, Surge um mundo: uma jornada rumo à consciência, de Michael Pollan, com tradução de Rogerio Galindo e Rosiane Correia de Freitas (Intrínseca, 304 pp, R$ 89,90), aprofunda a pesquisa do autor de Como mudar sua mente: o que a nova ciência das substâncias psicodélicas pode nos ensinar sobre consciência, morte, vícios, depressão e transcendência (2018) sobre a consciência humana a partir de lentes científicas, filosóficas, literárias, espirituais e psicodélicas.

Outras novidades

– Projeto Kalunga: um abraço de samba e de semba – Mauricio Barros de Castro (Cobogó, 160 pp, R$ 78) – Você nunca viu o mal de verdade: uma análise da governança do Estado Criminal por um ex-integrante do PCC – Ruan Lisboa (Planeta, 640 pp, R$ 104,90) – O lar é tão triste e outros poemas – Philip Larkin, org., trad. e posf. Paulo Henriques Britto (Companhia das Letras, 216 pp, R$ 89,90) – Emocionados: a coragem de sentir e (re)aprender a amar – Elisama Santos (Paz & Terra, 210 pp, R$ 59,90) – As línguas de diamante e outros poemas – Juana de Ibarbourou, trad. Ayelén Medail (Pinard, 310 pp, R$ 119,90) – A língua que resta: o tempo, a história, a linguagem – Giorgio Agamben, trad. Vinícius Honesko (Quina, 208 pp, R$ 72) – Viver é melhor que sonhar: os últimos caminhos de Belchior – Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti (Garota FM Books, 272 pp, R$ 75)

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