A atuação de magistrados diante de pedidos de busca e apreensão formulados por autoridades policiais ou pelo Ministério Público revela um dilema silencioso nos fóruns criminais do país: o temor das repercussões públicas. O custo jurídico para indeferir tais solicitações é nulo, uma vez que a Constituição e o Código de Processo Penal exigem fundadas razões antes de autorizar o ingresso em domicílios. Contudo, o receio reside nas manchetes, nos comentários em redes sociais e na pecha infundada de que negar uma medida cautelar significaria “proteger bandido”.
Esse ambiente de pressão constante afeta sutilmente a forma de julgar. O magistrado acuado pela opinião pública passa a enxergar o deferimento de diligências e a subsequente condenação como desfechos obrigatórios, mesmo quando a acusação acumula falhas ao longo da investigação. Em 2017, o ministro Sebastião Reis Júnior, do Superior Tribunal de Justiça, advertiu que “hoje é preciso coragem para absolver”. Já em setembro de 2025, o ministro Luiz Fux afirmou que o juiz deve “ter firmeza para condenar quando houver certeza e o mais importante: ter humildade para absolver quando houver dúvida”.
O temor da impopularidade e das pressões midiáticas compromete a imparcialidade necessária ao cargo. Em outubro, em meio a ameaças de morte, o ministro Flávio Dino resumiu o problema ao declarar que “se um juiz passar a ter medo de decidir um processo, à vista do suposto risco de sofrer perseguições pessoais, não existe mais Poder Judiciário. Nem Constituição”. A vitaliciedade existe exatamente para resguardar o cidadão, garantindo que o magistrado atue como sentinela da liberdade sem ceder a pressões externas.
Danos irreparáveis e assimetria processual
A distorção gerada pelo medo ignora uma assimetria fundamental no direito. A absolvição de um culpado por insuficiência de provas mantém os instrumentos estatais intactos para investigações futuras. Na fase cautelar, recusar uma busca não absolve o investigado, permitindo que o requerente renove o pleito posteriormente com novos elementos. Em contrapartida, a condenação de um inocente provoca um dano irreparável, marcado por anos de cárcere, reputação destruída e famílias desestruturadas, enquanto o verdadeiro autor permanece livre. A máxima histórica de William Blackstone sintetiza essa escolha civilizatória ao afirmar que é melhor que dez culpados escapem do que um inocente sofra.
No campo prático, a inversão é evidente. Medidas invasivas são frequentemente deferidas com base apenas em denúncias anônimas e relatórios genéricos, desrespeitando as garantias constitucionais da inviolabilidade do domicílio e da exigência de fundamentação idônea. A mesma lógica contamina o julgamento final, onde falhas da acusação acabam supridas por iniciativas do próprio juízo, violando a vedação expressa à substituição da atuação probatória do órgão acusador prevista no artigo 3º-A do CPP.
O reflexo dessa dinâmica é a consolidação do perfil do magistrado “mão pesada”, aplaudido por parte da imprensa enquanto colegas rigorosos com as provas enfrentam rótulos pejorativos. O problema ganha novos contornos com o volume de trabalho do juiz das garantias, criado pela Lei 13.964/2019 e validado pelo Supremo Tribunal Federal, cujo controle de legalidade muitas vezes cede espaço a decisões padronizadas e sem a devida análise individualizada.
O resgate do garantismo penal
As consequências dessa transferência de responsabilidade geram bloqueios patrimoniais indevidos, afastamentos e prisões preventivas prolongadas baseadas em ilícitos civis tratados como crimes. Ignorar os filtros de adequação e necessidade converte o direito penal em punição antecipada. O jurista Luigi Ferrajoli fundamentou o garantismo na premissa de que o sistema punitivo deve atuar estritamente como ultima ratio e proteção do mais fraco.
Defender a magistratura e exigir coragem não são posturas contraditórias, mas faces da mesma moeda. As garantias constitucionais da vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de subsídios servem precisamente para assegurar que o julgador desagrade a opinião pública quando a lei assim determinar. Afinal, um Judiciário guiado por manchetes perde sua essência, transformando qualquer cidadão em potencial alvo de abusos futuros.
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