A vitória de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) frustrou as expectativas da ampla maioria das lideranças evangélicas de projeção nacional que apoiaram o bolsonarismo, resultando em um tom misto de lamento e conformidade entre os religiosos, que reconheceram o resultado das urnas sem aderir a tentativas de contestação levantadas por aliados políticos.
Antes do pleito, o pastor Lucinho, da Igreja Batista da Lagoinha, havia compartilhado com seus 2,7 milhões de seguidores no Instagram o cronograma planejado para este domingo (25): votar às 9h, ir à igreja às 10h, “niver de churras” ao meio-dia, 18h, igreja de novo. Às 20h, “meu presente: vitória do 22!!!”. O roteiro terminaria com o “enterro do PT”, planos que acabaram por terra com o triunfo petista.
Diante do resultado, o bispo JB Carvalho, líder da Comunidade das Nações — igreja brasiliense onde Flávio se batizou em 2024 —, publicou a imagem do mapa do Brasil apoiado sobre uma mão que remete à figura de Deus, acompanhada da legenda “vida que segue”. A montagem traz a frase “a nação continua nas SUAS mãos”. Jesus continua no trono, e o Brasil ainda verá “um avivamento”, afirma Carvalho.
O pastor Silas Malafaia divulgou um vídeo pouco depois do resultado, dizendo lamentar “profundamente” o triunfo petista, “mas essa é a decisão do povo brasileiro”. Terminou com um “Deus tenha misericórdia do Brasil e livre-nos do caos econômico e social”.
Reações de aceitação e diálogo democrático
Em declaração, o bispo Robson Rodovalho, líder da igreja Sara Nossa Terra e conselheiro espiritual de Jair Bolsonaro na prisão — além de igreja onde o deputado eleito Jair Renan, caçula do ex-presidente, se batizou em 2024 —, afirmou que “fica nossa tristeza e nossa lástima, mas democracia é isso, vence quem consegue comunicar e convencer a maioria”. Ele reconheceu que o adversário “soube jogar” e preconizou: “Vamos em frente com fé em Deus e confiando nas instituições democráticas”.
Um posicionamento similar foi adotado pelo apóstolo Estevam Hernandes, da Renascer em Cristo e da Marcha para Jesus. Ele, que inicialmente defendia uma chapa liderada por Tarcísio de Freitas (Republicanos) com Michelle Bolsonaro (PL) de vice antes de endossar Flávio, declarou: “Apenas que essa foi a vontade popular. Democraticamente devemos aceitar, pois nos submetemos à vontade soberana de Deus”, afirmando ainda que “devemos continuar confiando que dias melhores virão”.
A “vontade soberana do povo, manifestada democrativamente”, também foi invocada pelo bispo Abner Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira. O ministério, que costuma adotar comportamento pendular e apoiar o governante da vez, havia respaldado Flávio na reta final após aproximação com o governo federal. “A democracia exige maturidade, equilíbrio e respeito às decisões populares, independentemente das convicções e preferências individuais”, disse.
Visão sobre o congresso e o futuro do país
Para o apóstolo César Augusto, da igreja Fonte da Vida, o momento exige que o país “vire a chave” da disputa eleitoral. “Somos todos brasileiros, orando pelo Brasil, orando por esse governo. Que ele seja melhor do que os governos passados.” Ele avalia que a direita sai fortalecida, com conservadores “que vão realmente se posicionar no Congresso”, e que Flávio consolidou sua posição como liderança nacional. No entanto, elogiou a trajetória do presidente reeleito: “Nós temos que reconhecer que Lula, como político, talvez seja o maior da história do país.”
Josué Valandro Jr., líder da Igreja Batista Atitude e frequentada por Michelle Bolsonaro durante sua moradia no Rio, afirmou que a direita cristã fez tudo ao seu alcance e que “fica a paz de saber que não nos omitimos”. “Agora, com o coração apertado, é hora de esperar em Deus e seguir com dignidade.”
Em uma linha mais persecutória, o reverendo Augustus Nicodemus Lopes, referência entre os presbiterianos, pontuou que a igreja já sobreviveu a momentos históricos nefastos e não deve temer os saldos eleitorais. “A Igreja sobreviveu a Nero, ao comunismo soviético e a inúmeras perseguições. Por que haveríamos de temer? Nossa esperança não está nas urnas, no Congresso ou no Planalto. Está em Cristo, o Rei dos reis, cujo Reino jamais terá fim.”
A postura da Igreja Universal
Por volta da meia-noite, a Igreja Universal do Reino de Deus enviou um e-mail aos fiéis questionando: “Seu candidato ganhou ou perdeu. E agora?”. A mensagem prosseguia: “Eleição passa. O familiar que votou diferente continua sendo da família. O colega continua trabalhando ao seu lado. […] O resultado das urnas não muda em quem você deposita sua fé.”
A Universal manteve-se como exceção entre as grandes igrejas evangélicas ao não se posicionar nem a favor de Lula nem de Flávio, postura avaliada como cautelosa enquanto o Digimais, banco controlado pelo bispo Edir Macedo, é alvo de investigações.
O bispo Renato Cardoso, genro de Macedo e figura central na instituição, compartilhou em suas redes um versículo do Evangelho de Mateus: “… pois Teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém”. Ele omitiu apenas a primeira parte da passagem, que começa com “e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal”. Foi o próprio Cardoso quem publicou, em 2022, um texto afirmando ser impossível ser cristão e de esquerda.
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