A menos de dois meses da cobrança efetiva dos novos tributos da reforma tributária, CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), apenas 9,1% dos profissionais contábeis e tributários de todo o Brasil afirmam ter planos de transição implementados.
Os dados são de um levantamento realizado pelo Thomson Reuters Institute em julho e agosto de 2026, com 577 profissionais das áreas contábil e tributária do país, para investigar o nível de prontidão desses especialistas.
Embora o número de profissionais com planejamento ativo represente mais que o dobro do percentual identificado em 2025 (3,8%) pelo instituto, mais da metade (52,9%) dos entrevistados continua no estágio inicial de preparação, acompanhando as mudanças na legislação, mas sem um planejamento estruturado. Outros 23,4% estão em fase preparatória, 13,2% em estágio incipiente (conscientes da reforma, mas sem acompanhamento contínuo) e 1,6% não souberam avaliar.
Segundo o instituto, os dados mostram um descompasso entre a velocidade das mudanças legais e o preparo do mercado. O cenário preocupa porque, embora a transição completa do sistema tributário esteja prevista para ocorrer até 2033, as primeiras mudanças de maior impacto operacional já estão próximas, como a cobrança da CBS, tributo federal que substituirá o PIS e a Cofins, a partir de 1º de janeiro de 2027.
O levantamento mostra que 74% dos entrevistados afirmam que seus escritórios ainda não formaram grupos de trabalho ou comitês internos para estudar os impactos da mudança.
Principais obstáculos para a adaptação
Entre os que ainda estão nos estágios iniciais de preparação, 36,8% apontam como principal obstáculo a concorrência com outras prioridades do dia a dia e a falta de tempo dedicado ao tema. Outros 27,3% mencionam a incerteza regulatória e a falta de clareza nas orientações oficiais.
Também foram citados a falta de conhecimento, treinamento e conteúdo educacional (13,2%), a escassez de mão de obra qualificada (11,7%), a complexidade da reforma e da legislação (9%), as restrições financeiras (6,6%), os obstáculos relacionados aos clientes (5,4%) e o excesso de informação (3,3%). Os entrevistados podiam apontar mais de uma dificuldade, por isso os percentuais não somam 100%.
A falta de planejamento aparece ainda no orçamento destinado à reforma. Entre os cerca de 70% dos profissionais que ainda não calcularam os custos de adaptação, 46% dizem que pretendem fazer essa estimativa, mas ainda não começaram. Outros 23% afirmam que não pretendem calcular os valores. O estudo estima que a adaptação às novas regras possa custar até 2% da receita anual de uma organização.
Segundo Marcondes de Borba, vice-presidente do segmento contábil e tributário da Thomson Reuters, o impacto financeiro não se limita à aquisição de sistemas ou à atualização de processos internos. Ele afirma que, com o novo mecanismo de arrecadação tributária, o chamado split payment, a reforma deve alterar a dinâmica do capital de giro das empresas, ou seja, os recursos disponíveis para manter as operações cotidianas, pagar fornecedores e financiar o intervalo entre recebimentos e pagamentos.
Isto porque, nesse modelo, o valor correspondente aos tributos é separado e recolhido no momento da liquidação financeira da operação, em vez de permanecer temporariamente com a empresa até o recolhimento posterior.
“Isso exige planejamento financeiro, revisão de contratos e precificação, limpeza de dados cadastrais e simulação de cenário. E aí que o contador pode ajudar”, diz.
Mais da metade (51%) dos profissionais entrevistados esperam impacto negativo moderado a significativo da reforma sobre o fluxo de caixa dos clientes. Apenas 26% preveem aumento de caixa para as empresas atendidas.
Oportunidades para o mercado contábil
Para Borba, a proximidade das mudanças exige que os escritórios deixem de tratar a reforma apenas como uma questão de atualização da legislação e passem a incorporá-la ao planejamento estratégico das empresas. De acordo com o levantamento, 55% dos profissionais esperam que o trabalho contábil se torne mais complexo com a implementação do novo sistema.
A transformação também representa uma oportunidade de ampliação dos serviços prestados pelos escritórios. De acordo com a pesquisa, 73% dos profissionais esperam maior demanda por serviços contábeis especializados, o que indica espaço para atividades de consultoria, planejamento tributário e avaliação dos efeitos financeiros das novas regras.
Nesse modelo, o contador deixa de atuar exclusivamente no cumprimento das obrigações fiscais, como calcular impostos, transmitir declarações e cumprir prazos, e passa a participar de decisões que afetam diretamente a gestão dos negócios. A análise de cenários tributários, a identificação de riscos, a avaliação de custos e a orientação sobre preços e contratos tornam-se parte relevante do trabalho.
De acordo com Borba, os escritórios que se anteciparem terão melhores condições de orientar seus clientes e conquistar espaço nesse novo mercado. “O caminho é ir além do cálculo de obrigações e atuar como conselheiro”, afirma.
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