Às vésperas da COP31, na Turquia, o presidente da Aliança Global pelas Energias Renováveis, Ben Backwell, alerta que o Brasil está ficando para trás na corrida pelo crescimento do mercado de energia limpa, cujo principal motor de expansão atualmente se encontra na Ásia.
Segundo o especialista, que também atua como CEO do Conselho Global de Energia Eólica, a nação voltou a considerar soluções do passado, a exemplo do gás, em vez de direcionar sua base industrial para assumir a dianteira do mercado mundial. Para reverter esse cenário, o país precisa superar entraves estruturais urgentes, ampliando as linhas de transmissão e otimizando as redes atuais com foco total em fontes renováveis.
“Agora que terminaram as eleições, uma questão é assegurar que o trabalho dos sistemas regulatórios, dos mecanismos de mercado, estejam aptos para o período que vem”, afirmou Backwell em entrevista ao videocast C-Level, da Folha.
O avanço das metas globais e os principais obstáculos
Comandando uma coalizão que reúne as principais associações globais de energia limpa (GRA), Backwell reconhece que a meta firmada em cúpulas climáticas anteriores de triplicar a capacidade de energias renováveis até 2030, atingindo 13 TW, não será alcançada exatamente no prazo, embora o mundo siga em uma curva correta de aceleração.
Entre os maiores entraves para atingir esse patamar estão a escassez de infraestrutura de redes de transmissão em âmbito global e a burocracia excessiva nos licenciamentos. O executivo pontua que projetos de energia eólica offshore, mesmo em locais avançados, exigem de oito a nove anos para vencer etapas burocráticas, enquanto a construção física leva apenas cerca de dois anos.
Para solucionar gargalos internos, como o curtailment (corte de energia por excesso de oferta), o especialista defende a integração de novas tecnologias. “O mais básico é a integração de baterias no sistema. Quase todos os projetos renováveis, em nossa opinião, vão ser com baterias de alguns tipos daqui para frente, sobretudo projetos fotovoltaicos com bateria, eólicas com bateria, eólicas com projetos híbridos. A inteligência artificial vai poder automatizar bastante essa produção e geração para melhor atender à demanda nas horas certas. Mas é importante que a gente foque essa questão da otimização, e não tentar voltar para tecnologias antigas, criar muitas coisas redundantes que não são necessárias.”
Cenário internacional e a posição brasileira
Questionado sobre os impactos da política dos Estados Unidos, Backwell aponta que o país norte-americano registrou um forte boom no setor — impulsionado pela demanda de data centers —, apesar de barreiras federais à eólica offshore. Contudo, ele reforça que o verdadeiro motor de crescimento atual é a Ásia, líder tanto em solar e eólica quanto em eletrificação.
No panorama global, o Brasil enfrenta um momento delicado. “O Brasil, historicamente, era líder em energias renováveis e teve muito sucesso em descarbonizar seu sistema. Primeiro com hidrelétricas, depois com eólica e solar. [Mas] Tem enfrentado o que chamam de curtailment e problemas de balancear o fornecimento e a demanda. Isso tem um efeito sobre os investimentos, o crescimento, e ainda estamos um pouco nesta crise.”
O especialista ressalta que o mercado brasileiro registrou lentidão e falhou em aproveitar oportunidades expressivas, a exemplo do recorde global da eólica em 2023. Problemas de planejamento na introdução massiva da energia solar fotovoltaica geraram desbalanços temporários entre capacidade instalada e demanda nos horários de pico.
Eletrificação e o perigo do retorno ao gás
Para Backwell, a transição exige avanços além da matriz elétrica, que já é limpa. Setores como a indústria química e o transporte precisam ser eletrificados para impulsionar a demanda por renováveis.
Ao debater se a construção de novas redes geraria custos pesados às tarifas, ele critica o foco em alternativas fósseis: “O que vejo é que estão um pouco olhando as soluções antigas, por exemplo, reintroduzir o gás como backup. Essas questões não são soluções para o futuro. [As soluções] São investimentos que depois vão resultar num sistema moderno que estará apto para o futuro. Não adianta simplesmente criar mais capacidade, usando gás, por exemplo, que é muito mais caro que renováveis, porque não vai utilizar as vantagens competitivas que o Brasil tem. Tem que otimizar o sistema para essas tecnologias, não introduzir tecnologias velhas e caras, como o gás.”
Por fim, apesar dos desafios regulatórios e das dificuldades enfrentadas pela indústria local com o fechamento de fábricas e evasão de mão de obra técnica, o presidente da GRA destaca que o país possui vantagens competitivas invejáveis — como os melhores ventos do mundo no Nordeste, forte incidência solar e recursos hídricos —, além de uma posição estratégica central para a instalação de data centers, desde que o marco regulatório e a lei do Redata sejam implementados com rigor e alinhados à sustentabilidade.
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