Uma iniciativa desenvolvida em setembro de 2026 com 41 estudantes da Rede Decisão Anglo Center Ville, escola particular de Campinas (SP), transformou a percepção de alunos do 5º ano sobre as comunidades quilombolas por meio de literatura, cartas e uma feira de troca de sementes.
“Quilombo era aqueles lugares no meio da mata fechada onde os escravos se escondiam quando fugiam das fazendas”, afirmou um estudante no início das atividades, refletindo um pensamento recorrente que associava esses territórios apenas ao passado e ao sofrimento. Para ampliar esse olhar, o projeto “Quilombolas: memória e território” buscou apresentar as comunidades como espaços vivos do presente.
A escolha das leituras e a metodologia
O planejamento articulou língua portuguesa, história, geografia, desenvolvimento humano e projeto literário. Entre as referências esteve a obra “Mulheres Quilombolas: territórios de existências negras femininas”, organizada por Selma dos Santos Dealdina, com foco na ancestralidade e na resistência cotidiana.
O percurso seguiu a metodologia autoral Leitura Viva, dividida em Pensar e Fazer, dedicando de duas a três aulas semanais de 45 minutos. A primeira leitura foi o livro “Aspino e o boi”, de Gessiane Nazário, autora quilombola da Rasa, em Armação dos Búzios (RJ). Antes da abertura da obra, a dinâmica “A Semente na Mão” convidou os alunos a refletirem sobre o valor e a proteção de uma semente de feijão ou milho.
O debate foi aprofundado com o documentário “Disque Quilombola” e relatos do quilombo Sítio Veiga (CE), publicados na Revista Cocar em 2019. Com isso, os alunos discutiram a autonomia e o direito de permanência na terra.
Cartas e Feira de Troca de Sementes
Os estudantes escreveram Cartas de Resistência destinadas a Aspino, aos moradores do Sítio Veiga ou à autora Gessiane Nazário, expressando sentimentos e aprendizados sobre os conflitos e a vida nas comunidades.
Na segunda etapa, a leitura do livro “Roça é Vida”, produzido pelas comunidades quilombolas do Vale do Ribeira — reconhecido como patrimônio cultural imaterial pelo Iphan em setembro de 2018 —, introduziu conceitos como roça de coivara e sementes crioulas. Após envolverem as famílias na investigação de pratos tradicionais, os alunos realizaram uma Feira de Troca de Sementes no auditório da escola, embalando as espécies no Banco de Sementes da Turma.
Resultados e desafios na educação antirracista
A avaliação demonstrou uma mudança significativa no repertório das turmas.
“Que triste saber que pessoas estão atacando outras e não é só pela plantação”, comentou uma criança.
Nas cartas enviadas a Gessiane Nazário, os alunos destacaram a transformação de seus pontos de vista:
“Eu não sabia que quilombos existiam e sofriam ataques de fazendeiros, aprendi muita coisa com o seu livro.”
“Antes de ler seu livro tinha uma visão estereotipada dos quilombos e agora entendo que os quilombos são sinônimos de resistência, coragem, luta e cooperação.”
Apesar disso, os educadores ressaltam que o racismo estrutural ainda dificulta a visualização completa dessas populações como produtoras de conhecimento, exigindo um trabalho contínuo de fortalecimento de identidades que prossegue ao longo de todo o ano letivo.
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