Projetos pedagógicos que conectam o conteúdo escolar à realidade dos estudantes foram os grandes destaques da terceira edição do prêmio da Rede Nacional de Ciência para a Educação (Rede CpE). Três educadores dos estados da Paraíba, do Amazonas e do Rio de Janeiro foram contemplados com R$ 5.000 cada por desenvolverem práticas inovadoras que impactam positivamente suas comunidades escolares. A cerimônia de entrega ocorre no Museu do Amanhã, na capital fluminense.
Solução para a escassez hídrica no semiárido paraibano
Na cidade de Caraúbas, situada no Cariri paraibano, o professor Alef Bruno dos Santos, de 32 anos, mobilizou estudantes do ensino médio da Escola Cidadã Integral Serveliano de Farias Castro para combater os efeitos da seca. A proposta surgiu a partir do projeto Sociobiodiversidade e Culturas Vivas, iniciado em 2024 para analisar a desertificação da caatinga e adaptado no ano seguinte para focar no armazenamento de recursos hídricos.
“Eu ficava me perguntando como o conhecimento que eu estava dando em sala de aula iria fazer sentido para os meus estudantes”, diz Alef.
Após analisarem as construções locais e constatarem perdas no escoamento pluvial, os jovens elaboraram um modelo de telhado em formato de V dotado de calha central. Os testes comparativos demonstraram que o protótipo inovador reteve um volume superior de água em relação à estrutura tradicional. Para complementar a captação, o grupo concebeu um filtro sustentável e de fácil manutenção, composto por areia, cascalho e carvão ativado, permitindo o tratamento da água antes do envio às cisternas comunitárias.
Sustentabilidade e recuperação ambiental na infância em Manaus
No Norte do país, os problemas ecológicos enfrentados pela comunidade ao redor da Creche Municipal Magdalena Arce Daou serviram de base para a atuação da professora Maria Raquel Souza dos Santos, de 45 anos. O centro educacional, localizado na capital amazonense, convive com queimadas, enchentes e o descarte inadequado de lixo próximo a um igarapé.
Para transformar esse cenário, a docente inseriu o cuidado ambiental na rotina da educação infantil por meio de jogos, experiências sensoriais e do plantio de uma agrofloresta. Os alunos cuidam da rega, acompanham o desenvolvimento das plantas e colhem alimentos, como acerolas, utilizados nas refeições escolares. Crianças com deficiência também foram integradas ao aprendizado através de um jardim sensorial exclusivo.
As ações transpuseram os muros da creche com o plantio de aproximadamente 300 mudas na margem do igarapé, visando recompor a mata ciliar destruída pelo fogo. A intervenção contou com caminhões-pipa fornecidos pela administração municipal, além de parcerias com associações de reciclagem e universidades. A estimativa é de que a iniciativa já tenha beneficiado cerca de 5.000 pessoas desde o início dos trabalhos, em 2024.
Fantasia e afeto contra a evasão no Rio de Janeiro
Em Bangu, na zona oeste carioca, a professora Luziene Rosa Sobreira das Chagas, de 44 anos, encontrou uma saída lúdica para engajar a turma da Escola Municipal Maria Quitéria durante a transição da educação infantil para o ensino fundamental. Notando o desânimo dos estudantes com a nova rotina de aulas formais, ela adotou métodos participativos.
“Quando a gente ouve a criança, dá lugar de fala sobre questionamentos e reclamações, consegue perceber o que está acontecendo. Eles estavam certos. Era chato”, afirma Luziene.
A educadora organizou círculos no chão e passou a construir um alfabeto associado a personagens de interesse da turma. Na introdução da letra B, a votação entre Batman e Barbie motivou a professora a comparecer caracterizada como o herói dos quadrinhos, vestindo máscara e capa improvisadas.
“Eles gritavam, riam, não acreditavam. Ficavam: ‘Tia, mas é a tia, tia é o Batman’”, conta.
A dinâmica incorporou jogos como bingo de sílabas e atividades customizadas para diferentes níveis de alfabetização, acelerando o aprendizado. A estratégia pedagógica se tornou ainda um contraponto aos desafios impostos pela violência urbana local, que frequentemente interrompe as aulas em função de confrontos armados na vizinhança.
“Aqui, muitos alunos já precisaram se esconder no cantinho da leitura por causa de tiroteios e explosões de granadas”, relata a docente.
Integração entre ciência e prática escolar
A coordenadora-geral da Rede CpE, Janaína Weissheimer, ressalta que o avanço educacional demanda valorizar experiências locais bem-sucedidas com capacidade de replicação na rotina pedagógica. Os educadores premiados passam a integrar a rede na condição de colaboradores e contam com acesso a programas de formação continuada, incentivando a disseminação de suas metodologias para outras regiões do país.
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